Opinião: Visita papal polémica
O Papa Francisco visitou a Bélgica no final de Setembro. Uma visita histórica de quatro dias ao país, que incluiu uma recepção dos reis da Bélgica, homilias e visitas a vários centros de apoio social e encontros com vítimas de abusos sexuais no seio da Igreja. O último papa a visitar a Bélgica tinha sido João Paulo II, há 29 anos.
O ponto alto da visita foi precisamente a missa presidida pelo Papa para uma multidão de aproximadamente 38 mil pessoas no Estádio Rei Balduíno, depois de um percurso em que foi saudado nas principais vias de acesso ao estádio.
Para além de transmissões em directo nas principais TVs e rádios nacionais, ecrans gigantes asseguraram que os fiéis que não conseguiram entrada no recinto pudessem seguir a cerimónia. O Centro de Crise Nacional coordenou as excepcionais medidas de segurança durante a visita papal, com diversas zonas da cidade interditas ao público, ou acessíveis com grandes limitações – numa cidade já de si caótica, escusado será dizer que a palavra “caos” é eufemismo para definir o trânsito durante esses dias.
Mas a visita do soberano da igreja católica à Bélgica não deixou de ser polémica. Franciso saudou a “coragem” do Rei Balduíno, fervoroso católico, que em 1990 recusou promulgar aquilo a que o papa chamou de “lei assassina” – referindo-se à lei que despenaliza o aborto-, invocando um grave problema de consciência. Na altura, para evitar uma crise, a solução encontrada foi o recurso a um artigo da constituição que permitiu que o rei fosse declarado impossibilitado de reinar durante 36 horas, tendo o Governo substituído o soberano na promulgação da lei.
Acerca do lugar das mulheres na sociedade, os propósitos do Papa Francisco também não foram bem acolhidos. Numa cerimónia de celebração dos 600 anos das Universidades de Leuven e Louvain-la-Neuve, afirmou que a mulher é “acolhimento fecundo, cuidado, dedicação vital”. As universidades reagiram imediatamente, considerando esta visão como determinista e redutora do papel das mulheres.
Três semanas depois da visita do Papa Francisco à Bélgica, as ondas de choque ainda se fazem sentir. Depois de várias individualidades e instituições como o Centro de Acção Laica se terem manifestado contra as declarações, 524 cidadãos emitiram uma carta aberta de protesto às autoridades católicas, inclusivamente solicitando a anulação do seu baptismo.
