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Opinião: Por quem os sinos dobram

28 de março de 2022 às 09 h57

Em Bona conheci um médico alemão de meia idade que, nos seus tempos livres, ia sentar-se nos bancos do jardim e conversar com os velhos que por lá apareciam. Ia conhecendo as suas histórias, sempre na expectativa de saber o que teria acontecido aos pais que desapareceram na Segunda Grande Guerra. A minha avó falava-me várias vezes do seu único irmão que teria partido para Espanha combater pelos republicanos. Terá desaparecido após o cerco de Toledo pelos nacionalistas. No fundo, sempre alimentava a esperança de que ele alguma vez reaparecesse.
São assim as guerras e suas tragédias. Há quem regresse. Traumatizado (ou gazeado, como antes se dizia), estropiado ou devolvido num caixão para que a família e a Pátria os homenageiem. A maioria, porém, simplesmente desaparece, mas os familiares, amigos ou conhecidos, mantêm a esperança de algum dia os encontrarem. O que se passou com eles, porém, raramente é sabido.
Desde a Guerra do Golfo, começámos a assistir à guerra em directo. Mas nunca como agora ela está tão presente. Os seus personagens entram, visivelmente vivos, pelas nossas casas adentro, chorando os seus mortos ou desaparecidos. E nós choramos com eles. A onda de empatia e solidariedade é enorme, e só é pena que nem todas as outras guerras tenham tido esta visibilidade. Entretanto, o terreno é propício para os jogadores de xadrez discutirem sobre táticas e estratégias sem que se venham a entender.
Para o comum dos mortais, porém, resta uma grande sensação de impotência. E talvez a melhor resposta seja o silêncio.
O silêncio também é respeito: “um minuto de silêncio”. Respeito por aqueles que morrem ou sofrem no terreno, pelos estropiados, pelas famílias destruídas, por aqueles que desaparecem. É ainda o tempo da reflexão enquanto não pudermos actuar. Pode ser um olhar para dentro, procurando aquilo que somos e podemos ser. O paradoxo humano, o melhor e o pior dentro de nós. O que poderíamos fazer se lá estivéssemos.
Estar em silêncio não significa estar adormecido. É antes estar muito atento. Atento ao mundo, à natureza que prossegue a sua vida indiferente aos desmandos humanos. Podemos fechar os olhos e atender os sons da natureza. Embora ela possa existir sem nós, nós não existimos sem ela. Saudemos pois o nosso hóspede. Mas podemos ouvir um pouco mais, e talvez oiçamos alguém como nós. Podemos saber como ele faz parte de nós porque ninguém é uma ilha isolada e cada um é parte de um continente de pessoas. Não só as pessoas que coexistem connosco mas também aquelas que nos precederam. Era por isso que o médico de Bona procurava os seus pais nos bancos do jardim e a minha avó sempre esperava reencontrar o seu irmão desaparecido em Toledo.
Podem existir momentos extremos em que a tudo se sobrepõe o som de uma ambulância. Ou de uma explosão. Ou de uma sirene. E quando tudo isto se calar, talvez possamos ainda ouvir os sinos dobrando por alguém. E ficaremos então a saber por quem os sinos dobram: os sinos dobram por todos nós.

2 Comentários

  1. Manuel Gois diz:

    Existe um livro "POR QUEM OS SINOS DOBRAM" o seu autor é Ernet Hemingway de excelente leitura.

  2. Jlio Pgo diz:

    Texto claro, luminoso, onde as sombras e os ruídos se esbatem para sentir, ver e ouvir melhor o silêncio.

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