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Coimbra: dos contrastes às oportunidades

10 de junho de 2026 às 10 h15

Coimbra é, por natureza e história, uma cidade que marca e que desafia o futuro. Mas o que define atualmente o pulso da nossa urbe? Se a percorrermos com “olhos de ver”, somos confrontados com um território de profundas contradições, onde a vanguarda e a vulgaridade parecem travar uma batalha pela alma da cidade. Coimbra é, hoje em dia, uma cidade de contrastes que gritam por uma estratégia coerente.

Coimbra é a cidade pioneira que ergueu uma distinta Torre Universitária, que realizou avanços na medicina, que construiu uma inovadora Ponte Pedro e Inês, que introduziu os troleicarros e o sistema metrobus em Portugal, e que criou um centro de incubação e desenvolvimento tecnológico quando ainda não se falava de empreendedorismo. Mas hoje parece contentar-se com a banal instalação de um repuxo no Mondego, um baloiço panorâmico ou um letreiro turístico, idênticos aos de tantas outras cidades. Onde estão o brio, a visão e a irreverência conimbricenses?

Na gestão do território, os contrastes são ainda mais marcantes. Suspende-se o PDM para densificar a construção e projeta-se um novo bairro, multifuncional e vibrante, na envolvente da futura Estação Intermodal, mas mantêm-se, nas áreas mais nobres da cidade, um extenso edificado ao abandono, como o antigo Hospital Pediátrico, ou áreas com funções totalmente desadequadas ao seu enquadramento urbano, como a Penitenciária e o parque de oficinas dos SMTUC. Como é que se pode ser moderno, convivendo com o desmazelo?

Enquanto o governo central adia por décadas a construção da nova maternidade ou do novo palácio da justiça, perante a oportunidade de finalmente receber um investimento estruturante que, à boleia da alta velocidade, poderia resolver o caos da Casa do Sal e do Almegue, a cidade do conhecimento vacila, sem debate alargado e sem profundidade de análise.

Até a vivência e as dinâmicas urbanas padecem desta dualidade. Criam-se eventos absolutamente inovadores como o Startup Capital Summit, o JNation, o Brew!Coimbra e o Festival Bash, mas organizam-se Mercados de Rua e de Natal que, salvo raras exceções, são meramente sofríveis. Rejeita-se o apoio à vinda de bandas com impacto global, como os Coldplay, para logo a seguir se acolher alegremente um festival de hambúrgueres. Acolhe-se o primeiro TUMO em Portugal – um centro virado para o futuro do ensino da tecnologia e das artes digitais – mas que coabita, logo ali ao lado, com uma pálida cópia da reconversão de um velho mercado em food hall, que tanto sucesso alcança em tantas outras cidades. Pretende-se impacto, mas convive-se com a vulgaridade.

Na Academia, berço da identidade “coimbrã”, o cenário não é diferente. Se, por um lado, se inova e se desafia a tradição com vozes femininas na Serenata Monumental, por outro, permite-se que o desleixo destrua o simbolismo da “Capa e Batina”. Estudantes em mangas de camisa, sem envergar a Batina (que dá nome ao traje académico!) e com a capa enrolada ao tronco, como um chouriço, não é apenas uma violação do Código da Praxe; é uma manifestação de ignorância e de falta de respeito pela história que lhes dá o orgulho de pertencerem a esta academia. Quem não se dá ao respeito, não será respeitado.

Coimbra encontra-se numa encruzilhada, mas tem dentro de si todos os ingredientes de que necessita para a resolver. E não faltam oportunidades – reconversão de Coimbra-A, nova Estação Intermodal, conclusão e expansão do Metrobus, etc. Até quando aceitaremos este divórcio entre o nosso potencial e a nossa realidade?

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