A Bienal acabou. Viva a Bienal!
A Bienal Ano Zero de 2026 terminou como começou, em grande.
Começou com uma imensa performance coletiva, centenas de pessoas vestidas de branco a percorrer a cidade ao som cadenciado de Va Pensiero, o conhecido “Coro dos Escravos” da ópera Nabucco, de Verdi. Belíssima e oportuna interação entre os músicos, os cantores e a cidade. Parecia que estavam lá todos os músicos, todos os cantores e todas as cidades. Comentámos, entre nós e entre dentes, que se adequava muito bem aos tempos que correm… mas ninguém disse porquê, como também vem sendo usual nos tempos que correm. Será que já estamos a antecipar os grandes silêncios da asfixiada liberdade?
Acabou com o som de Candura ao vivo, a complementar ainda mais explicitamente a peça que inclui também a obra de Rui Chafes “From Ruin”. Bem mais direto, apesar de tudo, a escuridão do fundo da ruína, da qual emerge um vulto ainda mais negro, o vulto negro sobre fundo negro. A beleza, para ser beleza, tem de se vestir com o manto da viuvez e entoar o som das trevas.
Entretanto, já está a ser divulgada a Bienal de 2028, uma parceria venturosa com a mais nómada de entre todas as bienais, a Manifesta. A Manifesta é uma Bienal que já vai na décima sexta edição, começou em 1996 em Roterdão, passou por várias cidades europeias: Frankfurt; Donostia-San Sebastian; Palermo; Zurich; Marselha; Barcelona; entre outras. Este ano realizou-se na região metropolitana do Ruhr, no noroeste da Alemanha. Foi lá que foi oficialmente anunciada a Ano Zero – Manifesta de 2028, em Coimbra. Uma vez mais, a Ano Zero alcança notoriedade internacional e consegue projetar essa sua visibilidade para o futuro.
Mas será que a próxima bienal se vai centrar só no Convento de Santa Clara-a-Nova? Apesar de todo o enredo em volta de uma alegada incompatibilidade entre a Bienal e o assim chamado “hotel de cinco estrelas”, que ninguém sabe muito bem o que é ou o que será, não tenhamos dúvidas que o “núcleo duro” das bienais Ano Zero tem sido Santa Clara-a-Nova. Porém, e consolidada que está essa presença, a Ano Zero-Manifesta almeja já um outro polo de peso. Coimbra é, em si mesma, um enorme manancial de locais sagrados, veja-se, e esse propósito, a atividade imensa do grupo cultural Pescada, que tem levantado o véu de tantos espaços urbanos e suburbanos esquecidos, todos com enorme potencialidade de se tornarem espaços cult. Em 2028, o próximo polo a angariar para a Ano Zero será então a Rua da Sofia. Sim, nada mais nada menos que a Rua da Sofia. A “jóia da Unesco” que tem sido um quebra cabeças para tantas mentes pensantes, com responsabilidades administrativas sobre os espaços aos quais foi atribuído um certo valor patrimonial, sejam eles edificados, sejam espaço público, pura e simplesmente. A melhor arquitetura portuguesa, pelas mãos pioneiras de alguns mestres, já provou à exaustão que é possível e desejável intervir sobre os espaços de carácter patrimonial, sejam esses espaços do domínio público ou do domínio privado.
O que é sempre necessário é dar sentido a esse trabalho com um programa de funções que garanta sustentabilidade económica sim, mas também dignidade histórica e cultural. Um exemplo marcante disso é a proposta do Polo Zero da Universidade, lançada pelo Reitor Seabra Santos, que parece agora poder vir a dar frutos.
A Rua da Sofia, com Unesco ou sem Unesco, espera de nós essa atitude. A Rua da Sofia não é só o passeio, o lancil e a ciclovia. É tudo. Passa pelo interior dos edifícios; pela requalificação dos monumentos do século XVI, bem como dos espaços menos monumentais de todos os tempos que lhe seguiram; é toda a encosta de Montarroio até à Conchada; do Pátio da Inquisição até Santa Justa e ao futuro Palácio da Justiça (oxalá que sim…). Esse trabalho, se for sério e condigno com o bem a tratar, não estará feito e acabado até 2028, é óbvio, mas é necessário entrar nesse desígnio com o pé direito.
Entrar sem pressas eleitoralistas e sem preconceitos atávicos, mas em intenso diálogo com todos: proprietários, utilizadores dos espaços, cidadãos em geral, todas as entidades públicas e privadas que tenham interesse em investir numa Sofia que possa vir a ter um futuro digno do seu passado remoto. Já que o passado próximo e o presente não se recomendam.
Em suma, é necessário um Projeto Urbano abrangente. Se tivermos essas diligências feitas em 2028, já teremos conquistado mais uma Bienal Ano Zero. E será uma conquista histórica, literalmente.

