A porta de entrada
A Região de Coimbra não tem um aeroporto. A Região Centro não tem um aeroporto, muito embora o aeródromo de Viseu tenha conseguido manter, nos últimos tempos, uma regularidade de tráfego considerável. Para que se possa insinuar como uma cidade minimamente integrada na rede urbana europeia, Coimbra precisa de uma porta de entrada digna desse nome.
Temos a rede rodoviária, que está incompleta há várias décadas e, nesse sentido, completamente obsoleta. Ou seja, as ligações norte-sul funcionam minimamente, porque ligam Lisboa ao Norte. Quanto às ligações transversais, no sentido este-oeste, não existem ou são tão rudimentares como há cinquenta anos atrás, no tempo em que a toda a rede rodoviária era miserável. Aliás, são ainda piores. Pelo menos, há cinquenta anos atrás, ainda havia uma estrada europeia, a EN 17, a mítica Estrada da Beira, que ligava a cidade à fronteira de Vilar Formoso. Hoje, o IP 3 é a vergonha que é, o IC 6, inteiramente dependente do IP 3, anda a ser feito às pinguinhas. Agora parece que vai ser acrescentado mais um bocadinho, até à Folhadosa…! Para oeste, temos a A 14, mas a sul do Mondego nada. Se, a partir de Coimbra, quisermos aceder à zona sul do Concelho da Figueira, ao Vale do Pranto por exemplo, temos nada mais nada menos que uma hora de viagem, tanto quanto para nos deslocarmos ao Porto. Sobre o modo como esses eixos rodoviários se encontram com a cidade, nem vale a pena falar. Excetuando a variante das Lages, no Alto dos Banhos Secos, nem sei se alguém, alguma vez, perdeu um minuto que fosse a pensar nisso.
Resta-nos, então, a possibilidade de vir a ter uma porta ferroviária. Com a linha de Alta Velocidade Lisboa Porto, temos finalmente a oportunidade de dar algum sentido a esta ideia de porta, o local por onde saímos e ultimamos as memórias do que aqui vivemos, e, simultaneamente, o local por onde entram aqueles que nos visitam, o ponto através do qual conquistam as suas primeiras e mais memoráveis impressões de Coimbra. Não, não se trata de uma plataforma onde os passageiros entram e saem dos comboios, é muito mais do que isso.
Até aqui, essas impressões podiam ser obtidas de duas maneiras diferenciadas, tínhamos uma Estação numa área central da cidade e uma estação de bifurcação (daí Coimbra-B). Se apanhássemos um comboio urbano para a Estação Central, saíamos em pleno centro da cidade. Em alternativa, podíamos sair na bifurcação e apanhar um meio de transporte convencional para qualquer ponto da cidade. Esta última alternativa era a que a esmagadora maioria das pessoas usava.
Hoje em dia, ficámos só com a bifurcação, uma estação miserável, situada numa área urbana altamente descaracterizada. Com um movimento ferroviário intenso, nem sequer tem um meio de atravessamento pedonal desnivelado, as pessoas têm que atravessar os binários, com rampas e semáforos de peões. Um cenário indescritível, vergonhoso mesmo, tendo em conta o facto de ser a tal porta de entrada, a primeira e última impressão de quem entra e de quem sai.
A Alta Velocidade veio trazer a oportunidade de termos uma estação ferroviária condigna. Vai ter a capacidade de servir como plataforma intermodal, ou seja, ligará diretamente as diferentes redes ferroviárias — alta velocidade, nacional, regional e suburbana — a todos os restantes modos de transporte — Metrobus, SMTUC, autocarros de serviço regional, automóveis próprios, táxis e outros automóveis de aluguer. Isto para além de ser acessível por todos os meios de mobilidade leve, pedonais, bicicletas, trotinetas, etc. Se for seguido o plano que a Infraestruturas de Portugal, em articulação com a Câmara Municipal, tem vindo a desenvolver, coordenado pelo Arquiteto Juan Busquets, a nova estação velha será também uma das áreas urbanas mais centrais da cidade e da região. Será um dos pontos fulcrais da mobilidade na designada Região Metropolitana, talvez o mais importante.
Esta nova estação terá, portanto, a enorme responsabilidade de corresponder a este desígnio. Estamos a alguns dias de conhecer as propostas apresentadas ao segundo concurso da primeira fase da Linha de Alta Velocidade Lisboa-Porto, correspondente ao traçado entre Oiã e Taveiro, que incluirá esta obra. Há alguma convicção, da parte das entidades responsáveis, que haja mais do que um concorrente. É sempre bom ter por onde escolher. A expectativa é muita, embora saibamos de antemão que o preço e a pressa sejam os critérios preponderantes para a decisão, valem 80%. A qualidade da solução vale apenas 20%. Na decisão final, a Infraestruturas de Portugal far-se-á assessorar por uma empresa que terá a função de avaliar essa mesma qualidade. Vamos cruzar os dedos e esperar que tudo corra bem!

