Opinião: Por fim…Enfim
Por fim, dois anos depois a praia e o mar.
Tendo em atenção a situação pandémica houve algum cuidado em selecionar uma praia que pudesse oferecer o necessário distanciamento social.
Encontrada essa praia, com acessos à moda antiga e portanto relativamente pouco movimentada mas, devidamente “infra-estruturada” com os já célebres passadiços que pretendem defender as dunas e dar passagem ao camaleão-comum (Chamaeleo chamaeleo), espécie protegida por se encontrar em risco de extinção e que anualmente, nesta época, se movimentam de oeste para este, iniciou-se a época balnear.
Chegar a esta praia é relembrar um Algarve da década dos “Índios da Meia Praia”.
A estrada de acesso, esburacada e em terra batida, o selvático parque de estacionamento a ocupar uma desativada e vandalizada estação de tratamento de águas residuais, instalada em plena duna secundária, com resíduos abandonados, maioritariamente, resíduos de construção e demolição, e uma ribeira desqualificada, são lembranças não muito longínquas, ou sim, de um Algarve que já não pode existir em pleno século XXI.
Inesperadamente a linha de água, descuidada, suja e em acelerada eutrofização oferece-nos um episódio diário da vida selvagem ribeirinha.
Quase ao pé do veraneante, uns dias passeiam-se despreocupadamente vários patos e garças brancas (Egretta alba ou Egretta garzetta), e noutros pegas rabudas (Pica pica), e garças-reais (Ardea cinerea), bem assim como cágados aparentemente mediterrâneos (Mauremys leprosa), enquanto no estacionamento, junto às viaturas, saltam e voam várias popas (Upupa epops) que aí bicam o chão à procura de insetos.
Perante tal ecossistema ribeirinho que só pode estar cadastrado e inventariado pela entidade oficial com competência na área, é urgente ordená-lo para que possa ser desfrutado, sim, mas devidamente protegido, salvaguardado e qualificado.
Pela minha parte já fiz o devido alerta à entidade competente. Aguardemos o tratamento da mensagem.
Continuo a recolha do plásticus marítimus. Nestes primeiros dias já encaminhei alguns exemplares desta espécie que merece ter os dias contados e guardei outros que, maioritariamente, parecem ter origem na construção dos referidos passadiços…
Na mesma praia fico estupefacto, quando várias vezes ao dia uma viatura do Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) se passeia languidamente junto à duna primária. É inadmissível ver os nossos impostos a destruírem as dunas e logo quando acaba a época balnear, mais impostos, a serem aplicados na reconstrução e defesa das mesmas. Relembra-se que os passadiços servem para garantir o não pisoteio das dunas de modo a permitir que estas se fixem e que se volte a instalar vegetação natural que contribui para a sua estabilização.
Se por um lado instituições públicas como a Agência Portuguesa do Ambiente e algumas Autarquias defendem as dunas construindo os passadiços, impondo aos veraneantes um só caminho de acesso às praias, por outro uma instituição igualmente pública permite que alguns dos seus colaboradores passeiem de viatura oficial pelas dunas, talvez imaginando-se na série Marés Vivas, ou pilotos de um Paris-Dakar.
Enfim.

