Nemesis e o feitiço do espelho
É sabido que a cidade de Coimbra gosta de olhar para si própria, projeta a visão do cimo de cada colina sobre as outras, do vale encavado sobre as encostas urbanizadas que o emolduram. Está sempre, sempre, a olhar para si própria. Mas quando a colina central se viu refletida na água do rio, espelhando-se, apaixonou-se desequilibradamente. E fê-lo de uma forma tão intensa e insensata que se esqueceu de tudo o resto, não parou mais de olhar fixamente para o espelho de água. As encostas e os vales, que cresceram desde então, foram sendo vítimas enjeitadas desse enlevo tão doentio, tão obsessivo, tão exclusivamente dedicado a uma visão única e inamovível.
Nemesis usou então a sua pulsão vingadora para repor o equilíbrio e a decência, como sempre. Aplicou-lhe a mesma punição que tinha um dia castigado Narciso. Muito dificilmente iria sair dela.
Passado tanto tempo, porém, constatamos que, entre as colinas e os vales que se desenvolveram na outra margem, é cada vez mais raro encontrar motivos de encanto, não há nada sequer que nos faça parar um átimo para ver, quanto mais para nos apaixonar desalmadamente. A encosta e o rio ficaram petrificados e tudo o resto à sua frente foi ficando amaldiçoado.
Essa foi a principal razão pela qual vimos aqui apelar a Nemesis para que reconsidere o castigo aplicado a Coimbra. Tudo faremos para que tal aconteça. Pensamos não ser necessário, mas se a isso formos obrigados, iremos mesmo junto de Júpiter para agilizar a comutação da pena. Sobretudo, para lhe fazer ver que seria mais útil dar a tal punição um significado regenerador, não tão definitivo, algo que pudesse ser mais útil e agradável aos muitos milhares de mortais que, quotidianamente, ali desenrolam os seus destinos. Pode ser que agora as penas estejam a mudar, tudo está a mudar de resto, mas já há mais de dois séculos que o direito penal privilegia a regeneração em detrimento do castigo, que Diabo!
Esta crónica visa também essa intenção de demonstrar a Nemesis que uma mudança de carma nos seria bem mais útil que a condenação perpétua a que Coimbra está votada.
Alturas houve em que o que chamávamos Santa Clara correspondia a uma pequena malha urbana que se concentrava essencialmente ao longo do prolongamento da ponte mais antiga, expandia-se em redor de Santa Clara-a-Velha e concentrava-se à volta do Portugal dos Pequenitos, para depois subir a encosta ao longo da antiga estrada de Lisboa. Todo aquele espaço mais a norte, desde o Almegue até ao Rossio, que correspondia à base de uma encosta dominada pelos conventos novos, São Francisco e Santa Clara, era um terreno mais inexpugnável, ao longo do qual pontificavam algumas casas prósperas, que olhavam sobranceiramente sobre a cidade, e pouco mais tinha que um pequeno renque de edifícios humildes que subiam pela velha quelha da cerca de Santa Clara-a-Nova, que hoje se chama Rua Coelho da Rocha.
No início da década de 1960, parecia que tudo iria mudar com a construção do complexo desportivo, projetado pela mão do arquiteto de Coimbra Alberto José Pessoa, na sequência das suas intervenções na Alta e, depois, nas Instalações Académicas e Teatro Gil Vicente. O Estádio Universitário foi um projeto de grande qualidade urbana e arquitetónica que, ao longo do tempo e salvo raras exceções, se foi sucessivamente adulterando com pequenas-grandes modificações desintegradas e desrespeitadoras do projeto original. Seguiram-se mais algumas intervenções desqualificadas, a Escola Silva Gaio, e o parque e oficinas dos transportes municipais.
À medida que andamos para norte, vai piorando, estacionamento desregrado, pistas de motocrosse e terrenos baldios competem entre si em insensatez e desleixo, tudo a menos de duzentos metros do centro da cidade. Mesmo a designada Avenida da Guarda Inglesa corresponde a uma artéria que foi sendo preenchida casuisticamente, sem pensar na volumetria e, menos ainda, na relação da volumetria com a encosta, é frequente que os muros de contenção da pendente que está por trás dos edifícios sejam ainda mais elevados que os próprios edifícios, tão atarracados que são, raramente ultrapassam os três pisos. Isso é uma situação tristemente inédita na cidade de encostas que é Coimbra. Foi a condenação de Nemesis, caída do céu como um raio castigador que ditou o destino desta parte da cidade, que a obrigou a sofrer este suplício, pelo menos enquanto viver ensimesmada, apaixonada e debruçada sobre o rio.
Enfim, esta área norte da margem esquerda necessita rapidamente de uma intervenção profunda e, nesse sentido, não podemos deixar de saudar a intenção expressa pelo Município de suspender o PDM para levar a cabo esse estudo. Lembramos só que um tal projeto deverá ter em conta a totalidade do corpo urbano da outra margem, com a mesma densidade com que hoje se espelha no rio. Não se deve intimidar com a colina, que é impossível de replicar e por isso ficou sozinha, inanimada, viúva de si mesma.
Mas logo veio alguém, neste caso a CCDRC, a apelar à manutenção do PDM, uma figura de plano com mais de quatro décadas, desadaptada da realidade e com premissas ridículas à luz da contemporaneidade. Toda a área terá necessariamente de replicar e respeitar a cidade da margem direita, a qual também deverá deixar de se ver ao espelho. Ambas olharão frente a frente para a alteridade urbana do outro lado e cultivarão um amor correspondido. Como em todas as paixões saudáveis que se prezam.

