Arquitetura Adentro
Quando viajamos e conhecemos novas cidades, concentramos todos os sentidos na fruição de tudo aquilo que, para nós, é novo. Fixamo-nos nos espaços monumentais e nos espaços comuns, nos locais públicos, no tipo de comércio, tentamos descortinar o modo de vida dos cidadãos, escutamos os sons locais, quer os mais banais, quer os mais elaborados musicalmente, ingerimos sabores nunca antes experimentados e deixamo-nos conduzir por meios de transporte diferentes do habitual.
Mas no quotidiano das nossas cidades, aquelas em que vivemos, raramente nos detemos para fixar este ou aquele pormenor, esta ou aquela cena de rua, para ouvir este ou aquele som. Quase nunca nos detemos perante um edifício, nunca pensamos acerca da qualidade do espaço público que apressadamente calcorreamos ou percorremos.
Por isso, algumas administrações urbanas começaram a dedicar mais atenção à possibilidade de levar os seus concidadãos a visitar os espaços do seu quotidiano, da sua vizinhança.
No Porto, cidade que alberga uma das mais internacionalmente reconhecidas escolas de Arquitetura, surgiu com naturalidade a iniciativa “Open House Porto”. Mais tarde veio a ser replicada em Lisboa uma idêntica, adotou o mesmo nome e é organizada no âmbito da Trienal de Arquitetura daquela cidade.
Trata-se, no essencial, de convidar os cidadãos à visita dos espaços mais inusitados, aqueles acerca dos quais ouviram falar uma ou outra vez, mas raramente têm o tempo e predisposição para confirmar em pessoa o que deles se vai dizendo. Ou até aqueles mais conhecidos, os que tanto atraem os turistas, aqueles que nós já visitámos em tempos idos, mas nunca mais nos lembrámos de lá voltar, para atualizar a vista, para rememorar.
Há dois pares de anos atrás, por iniciativa de uma cidadã, a Dra. Margarida Mendes Silva.
Coimbra começou também a mostrar as suas relíquias arquitetónicas. O evento foi batizado com um título mais genuíno, passando a designar-se “Casa Adentro”. Desde aquela altura, temos tido oportunidades sucessivas de ver as melhores relíquias arquitetónicas situadas em Coimbra e áreas envolventes.
No sábado passado, foi mais um dia de “Cas30a Adentro”, foram visitadas vinte obras, muito diversificadas entre si, mas todas demonstrando os resultados finais de trabalhos de arquitetura qualificados, trabalhos que foram especificamente dedicados a contextos urbanos de grande complexidade, enfim, trabalhos cuidadosos.
A arquitetura é a mais exposta das atividades profissionais. Nós, os arquitetos, não temos de nos deslocar a ambientes específicos, nem sequer de nos concentrarmos num ambiente de trabalho com determinadas características. Nós vivemos dentro do nosso ambiente de trabalho, que é todo o espaço que necessita de ser organizado e que carece quase sempre de ser melhorado. Desde que nos levantamos até que adormecemos, estamos sempre envoltos pelo espaço que trabalhamos, temo-lo sempre ao alcance de um gesto, de um olhar de relance.
Mas para a maioria das pessoas, há que despertar sensações, há que realçar pontos de vista, há que chamar a atenção para determinadas situações arquitetónicas. É precisamente para isso que serve o “Casa Adentro”. E isso, por si só, não é uma missão de somenos. Gostava de aqui realçar o trabalho de uma grande e coesa equipa, que envolveu a Câmara Municipal, a Secção Regional do Centro da Ordem dos Arquitetos, e o Departamento de Arquitetura da Universidade.
É então por estas razões que se deve acarinhar ao máximo esta iniciativa que, em boa hora, tem vindo a ser ciclicamente retomada. Vimos e vivemos, por alguns momentos que seja, espaços mais privados, espaços que muito dificilmente teríamos oportunidade de ver e de visitar. Reaprendemos a fruir as sensações que nos causam os espaços públicos, conquistamos a vontade de os revisitar outras vezes, agora sabendo um pouco mais do objeto a admirar.
Relativamente às designadas obras públicas, as iniciativas do tipo “Casa Adentro” servem também para nos lembrar a grande responsabilidade que é tratar os espaços pertencentes do domínio que nos é comum. Na maior parte das vezes, os serviços que gerem essas obras estão exclusivamente focados em dois critérios básicos, o orçamento e o prazo de execução, abreviando: o “preço” e a “pressa”.
Mas o que permanecerá ali por muitos e muitos anos é bem mais que isso. Sem descurar as contas públicas e a eficácia da obra, os deveres de quem faz a gestão das obras da esfera pública deverão passar também pela garantia das suas qualificações arquitetónicas, ambientais e urbanas. É imperioso que assim seja, embora saibamos que, infelizmente, em Coimbra, essa tem vindo a ser uma preocupação cada vez mais rarefeita.
Esperemos que os sucessivos “Casa Adentro” sirvam também para gerar esse efeito catalisador. Vamos confiar que sim.

