Opinião – Os números da transição digital em Portugal
A tendência para procurar nos dados um princípio de inteligibilidade nunca abandonou as mentes matemáticas e matemático-filosóficas (Pitágoras, Leibniz, Whitehead e Russell), por isso, seguindo o seu exemplo, apresentam-se os números globais do PRR – Transição Digital e sua análise quantificada.
Componentes e ações da Reforma
Quadro I
Quadro II
Quadro III – Valores Globais
Os quadros I e II apresentam, em termos quantitativos e valorativos, os componentes ou ações de reforma e o número de investimentos. Em termos numéricos, o Estado é beneficiado com 80% a 85% do número dos instrumentos, ou seja, 80% dos componentes, 85% do número de ações da reforma, e 83% do número de investimentos. Para as empresas, os mesmos instrumentos situam-se entre 15% e 20%. O apoio maioritário ao Estado, em termos de transição digital, relativamente ao setor privado é inquestionável!
No quadro III evidencia-se que o setor digital, em comparação com os outros programas estruturais, é claramente o menos favorecido em termos de valor, situando-se muito abaixo da média europeia, que anda à volta dos 26%. Com base nesta política de afetação de recursos dificilmente a transição digital alcançará os objetivos que lhe estão consignados.
Transição digital do tecido empresarial
Quadro IV
No quadro IV percebe-se que a entidade administradora dos fundos é o IAPMEI.
Quadro V
No quadro V identifica-se que, para a capacitação digital das empresas estão previstos 100.000€, para um total de 800.000 formandos. A cada trabalhador, per capita, corresponde o valor 125€. Em termos globais, para a transição digital das empresas estão previstos 650 Milhões de Euros, valor manifestamente insuficiente para fomentar a transição das empresas ( 530.000 unidades) para entidades ciberfísicas (empresas 4.0 ). De facto, a importância de 1226€ por empresa é ridícula. Mas, como o total das empresas existentes em Portugal atinge 1.335.006 unidades, segunda a Pordata, o valor unitário a atribuir a cada empresa é, em média 486€. Note-se, 486€… Nem sequer ao salário mínimo chega. Por sua vez, o custo unitário por trabalho privado, no ativo, é de 146€.
Neste enquadramento o desenvolvimento da digitalização das empresas está ameaçado, em virtude de apoio dado à iniciativa privado ser significante.
Quadro VI
O quadro VI evidência que a dimensão digital por unidade da população ativa é de 537 Euros. O custo de digitalização do setor público per capita é de 2.905 Euros. O conjunto das verbas afetas à transição digital relativamente ao PIB representa 1,19%. Comparando o custo inerente a cada trabalhador da função pública, relativamente ao setor privado, conclui-se que é superior em 19,8 vezes. Repensar estes valores parece indispensável, atendendo a que a digitalização é um dos pilares de desenvolvimento dos planos de recuperação do Next Generation, que tem como objetivo de impulsionar a competitividade na Europa.
A transformação digital é enunciada como variável relevante no plano de recuperação e resiliência apresentados pelos países da União Europeia. Na Espanha, a verba atribuída é de 28%, na Itália, 25%, na França, 21%, na Alemanha, 52%, na Polónia, 20%, na Grécia, 23,3%, na Bélgica, 27%, na Dinamarca, 25%, em Malta, 26%, na Letónia, na Eslovénia e na Eslováquia, 21%, no Chipre, 23%, na Estónia, 22%, na Irlanda, e Lituânia, 32%, na Roménia, 21%, na República Checa, 22,5%, na Finlândia, 27%, no Luxemburgo, 21% e na Suíça, 24%. Nesta sequência, as verbas atribuídas para a digitalização da administração pública portuguesa e para as empresas privadas é francamente inferior à média da Europa. Neste sentido, os fins pretendidos, correspondentes à dimensão transição digital, que se materializam na necessidade de dispor de estruturas digitais eficazes para assegurar a desmaterialização das transações e processos, obter ganhos estruturais de eficiência relevantes e adicionalmente “promover o desenvolvimento de sistemas avançados de informação, integrando inteligência artificial, e utilização de formas de computação avançadas em Portugal, estimulando a sua utilização pela administração pública e empresas”, dificilmente serão alcançáveis. Não bate a bota com a perdigota, é uma expressão de sabedoria popular aplicável à situação.

