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Opinião: O teatro das feiras de Bruxelas

09 de outubro de 2025 às 11 h30
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Em qualquer dia do fim-de-semana, há sempre um mercado a acontecer algures na cidade de Bruxelas – dos mais pequenos, de bairro, aos maiores, intermináveis. Há os mais finos, com bancas de vinho e aperitivos, onde as senhoras passeiam com cãezinhos dentro de bolsas; mas também os mais populares, onde se empurram carrinhos de compras e carrinhos de bebé, no meio de corredores intermináveis de bancas de venda.
Aqui encontra-se mesmo de tudo, desde auto-rádios ou sapatos usados a móveis, mas também os tradicionais frutos e legumes. E vale a pena visitar os mercados: por norma os preços são mais convidativos, mas há também uma mescla interessante de culturas, cheiros e vozes. Um simples passeio pelo mercado equivale a uma viagem por meio mundo: especiarias de Marrocos, azeitonas da Grécia, queijos franceses, flores holandesas, roupa turca, e até bifanas ou leitão de Portugal. Para um português, acostumado à feira com pregões, aqui também tudo se mistura num barulho poliglota, misturado com encontrões e atropelos. A mim falam-me em grego, árabe, romeno e espanhol – respondo em francês, mas de nada vale!
O mais curioso é o improviso, estranhamente organizado: as bancas que parecem cair aos pedaços estão todas alinhadas e resistem estoicamente à chuva e ao vento; os compradores negociam, por vezes também em línguas distintas,… E depois há o detalhe belga: a polícia que passa devagar, o fiscal que toma nota, os carrinhos de limpeza pública ávidos pelo fim do mercado para limpar imediatamente o local. Uma hora depois, tudo está limpo e o local volta a ser o estacionamento selvagem habitual.
No fim, regressa-se a casa carregado de sacos de plástico (proibidos em todo o lado menos aqui), mesmo que a intenção inicial fosse apenas comprar “uma frutinha”. E fica a sensação de que aqui, no meio do improviso multicultural, a feira é talvez o retrato mais fiel de Bruxelas: caótica, barulhenta, inesperada – mas funcional e fascinante, na sua loucura habitual.

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