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Opinião: O perigoso hábito de contornar a regra

20 de dezembro de 2025 às 12 h41

Quase ninguém gosta de esperar. E quase todos aprendemos, mais cedo ou mais tarde, que a prática social legitima formas de contornar certas regras. O semáforo amarelo é um bom exemplo: onde a regra dita prudência, a prática social autoriza o pisar do acelerador.
Acelerar no amarelo não é visto como uma infração escandalosa, mas como um acordo tácito de fluidez. O cumprimento estrito da regra pode até ser punido socialmente: quem trava no amarelo arrisca a buzina, a reprovação e o choque. Quem acelera, pelo contrário, age em conformidade com a expectativa coletiva. É nesta aprendizagem discreta que a exceção ganha estatuto de normalidade: não se apresenta como transgressão, mas como uma adaptação “sensata” à realidade. A regra permanece intacta no papel, mas a vida real ajusta-se através do hábito e da antecipação da reação do outro.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou-lhe “habitus”: a estrutura social incorporada que nos ensina, sem precisarmos de pensar, quando obedecer e quando negociar. Não aprendemos apenas as regras, aprendemos quem pode flexibilizá-las, em que circunstâncias e com que rede de segurança.
O mesmo princípio que nos legitima a acelerar no amarelo orienta os pequenos favores do quotidiano: o pedido que recebe atenção especial, o processo que “anda mais depressa” ou a exceção concedida porque “não custa nada”. Nestes casos, o acesso a um recurso (a aceleração de um processo ou a concessão de uma exceção) não é garantido pela regra, mas pela relação pessoal. O capital social – esse património relacional de conhecimento, vínculos e confiança acumulada – funciona como um filtro prático. É ele que decide quem é atendido com prioridade.
O perigo reside quando esta gestão da exceção se torna regra. Quando o “atalho” mediado por contactos passa a ser a prática corrente, o favorecimento deixa de exigir justificação moral. O telefonema que desbloqueia, a urgência artificial do processo e o favor administrativo deixam de ser percebidos como desvios. É nesse terreno que a corrupção se instala, não como uma súbita rutura ética, mas como o sedimento natural de comportamentos socialmente aceites.
O sistema “aprende” a funcionar por exceções negociadas. O abuso deixa de ser percebido como tal e passa a ser interpretado como a forma “realista” de fazer as coisas.
Num sistema corrompido pela normalização da irregularidade, o mundo vira-se do avesso de forma desconfortavelmente paradoxal: quem insiste em cumprir a regra deixa de ser um interlocutor legítimo e passa a ser tratado como um ingénuo ou, pior, uma ameaça ao funcionamento “normal” das coisas.
Para um sistema corrupto, o problema não é o abuso, mas quem lembra que as regras devem ser cumpridas.

Pode ler a opinião de Ana Raquel Matos na edição impressa e digital de hoje (20/12/2025) do DIÁRIO AS BEIRAS

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