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Opinião: O indispensável perfume

21 de julho de 2025 às 09 h13
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Em um dos episódios mais curiosos do Evangelho de S. João, uma mulher vem lavar os pés de Jesus, perfumando-os de seguida com um perfume caríssimo, de valor correspondente ao rendimento anual de um trabalhador. Imediatamente é criticada por Judas Iscariotes: “Por que razão não se vendeu esse bálsamo por trezentos denários para se dar aos pobres?”

A resposta de Jesus é estranhíssima: “Deixa-a! Ela tinha-o guardado para o dia da minha sepultura. Pois pobres sempre os haveis de ter convosco, mas a mim nem sempre tereis.”

A frase “pobres sempre os haveis de ter convosco” não é um convite à resignação ou à indiferença, mas imediatamente remete os judeus piedosos e conhecedores da Escritura para o livro do Deuteronómio: “Nunca faltará um pobre no meio da terra. Por isso, eu te ordeno, dizendo: ‘Deves abrir a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado e para o teu pobre na tua terra’.”

Esta resposta sublinha assim que não há soluções simples e imediatas para as pequenas e grandes aflições que nos atormentam e convida-nos a duvidar dos aldrabões que tudo resolvem com uma tirada. Somos assim convidados a procurar respostas olhando para o alto, para tudo aquilo que nos eleva e nos perfuma e que, só isso, será capaz de nos tirar coletivamente da “fossa”. Ou, numa das brilhantes tiradas de Oscar Wilde, “estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós estão a contemplar as estrelas”.

Esta capacidade de olhar para os mais fracos é uma das mais significativas heranças do judeo-cristianismo. Tal como tudo o que temos de valioso, esta herança é frágil e é naturalmente contestada em todas as épocas e por todas as pessoas, sobretudo quando se encontram em posições privilegiadas (basta olhar para tantos exemplos históricos – passados, presentes e até futuros – de situações em que os “cristãos” se tornaram os mais fortes, rapidamente arrumando os ensinamentos de Cristo na gaveta).

Não é por isso de estranhar que muitos auto-proclamados “cristãos” por esse mundo fora (dentro e fora de fronteiras, fora e dentro de sua casa), ao chegarem a situações de domínio, rapidamente adotem a postura mais simples e primitiva: ser forte com os fracos e fraco com os fortes. Entre nós, não falta quem invoque os santos e, quando em posição de superioridade, incessantemente aponte baterias aos mais fracos dos fracos: os filhos de estrangeiros ou das famílias mais pobres.

Estes falsos profetas consideram por exemplo dispensável a educação pré-escolar dos filhos de desempregados e enunciam pelo nome próprio as crianças consideradas “a mais”. Até a alcoviteira vicentina fingia melhor: “Santa Úrsula nom converteu tantas cachopas como eu: todas salvas polo meu que nenhűa se perdeu.”

Voltaire, que combateu corajosamente os abusos da Inquisição, dizia acertadamente: “[o crente] ri-se de Loreto e de Meca: mas socorre o indigente e defende o oprimido.” Ou, na versão original de S. João Evangelista: “Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, e odiar o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, que vê, não pode amar a Deus, que não vê.”

O fedor de Judas Iscariotes rapidamente se espalha. Precisamos de perfume como de pão para a boca.

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