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Opinião: Época do guarda-chuva: sol, sombra e caos

21 de maio de 2025 às 09 h12
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Em Macau, o guarda-chuva é um autêntico camaleão cultural. No inverno, quando o clima é maioritariamente seco e as chuvas surgem de forma esporádica, o guarda-chuva faz as suas aparições pontuais, como um convidado reservado que só se mostra em dias de aguaceiros.

Contudo, com a chegada do verão, o cenário e o seu uso mudam: a época do guarda-chuva está oficialmente aberta, e ele torna-se um fiel aliado e um acessório diário indispensável. Sob o sol subtropical que parece querer desafiar as leis da física, o guarda-chuva é erguido não contra a chuva, mas como um elegante escudo contra os fortes raios de sol. Na cultura chinesa esta prática carrega séculos de tradição; das damas da corte imperial, que usavam delicadas sombrinhas para preservar a pele clara como sinal de beleza e estatuto, aos dias de hoje, o guarda-chuva evoluiu para algo prático e democrático, símbolo de cuidado e estilo.

Passear por Macau no verão é assistir a uma coreografia de sombras coloridas. Mas nem tudo é um passeio sereno sob a protecção de uma elegante sombrinha. Chegamos agora à parte em que a leveza dá lugar ao caos, ao humor e, sejamos honestos, a uma pitada de desespero. Subir a icónica Rua de São Paulo no pico do verão é uma aventura digna de uma comédia de acção; uma multidão de turistas, cada um com o seu acessório de protecção solar aberto e erguido como extensão do seu braço — de pandas, flores, bolinhas, propaganda ou cores néon — em passo apressado e a disputar espaço para chegar às Ruínas de São Paulo e conseguir a selfie perfeita. O sol castiga, o suor escorre e o espaço é exíguo.

De repente, torna-se uma batalha de esgrima involuntária: guarda-chuvas chocam, as varas prendem no do vizinho, umas ficam para trás e viram-se do avesso, e há sempre aquele turista distraído que bloqueia a passagem com um guarda-chuva desmesurado. Tentar “fintar” os obstáculos alheios é como jogar um jogo de computador no nível mais avançado. Cada passo é estrategicamente calculado por forma a evitar os obstáculos que se multiplicam à medida que a multidão avança. Desvio-me para a esquerda, uma família completa avança sincronizada como uma muralha. Tento à direita, e um casal apaixonado forma um bloqueio romântico com os seus guardas-chuva a combinar. Nisto vou aproveitando a sombra alheia e fazendo uso do velho sábio truque de circular o mais próximo possível das entrada das lojas, na esperança de que o forte ar-condicionado me equilibre os sentidos.

E, quando penso que domino a técnica, o trânsito pedonal congestiona dos dois lados e a começa a competição entre o senhor que oferece bolachas da sorte para degustar e a publicidade intensa por parte do vendedor de gelados de durian. Chegar à escadaria das Ruínas de São Paulo é uma vitória épica, com cabelo de louca, um sorriso exausto e mais uma aventura para contar.

 

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