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Opinião: Entrega (não) garantida

17 de julho de 2025 às 09 h21
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Em Portugal, há uma regra tácita: o carteiro conhece-te. Ou pelo menos sabe quem és, conhece a tua família. Sabe onde moras, que a campainha de baixo está avariada, que as pequenas andam na escola e os pais já usufruem da reforma. Se não estás, deixa o aviso, ou – com sorte – entrega à vizinha do lado, que ainda é mais fiável que qualquer notificação digital.

Já em Bruxelas, receber uma encomenda é uma espécie de gincana interdimensional. O carteiro não te conhece, sobretudo não te quer conhecer e, na dúvida, nem tenta entregar. Recebes antes um e-mail impessoal: “tentativa falhada de entrega”.

Tentativa essa que não coincidiu com qualquer movimento suspeito na campainha ou na tua caixa de correio, mesmo que tenhas ficado em teletrabalho todo o dia em casa, de propósito para receber aquele pacote mesmo importante. No outro dia, o carteiro tocou à campainha, falou comigo pelo intercomunicador, disse-lhe que ia lá abaixo (porque os carteiros não sobem andares, julgo que será por alguns prédios não terem elevadores), e quando cheguei não havia ninguém: só a minha encomenda no chão à frente da porta, sozinha e abandonada.

Quando não tens esta “sorte”, és instruído a ir buscar a encomenda a um ponto de recolha. Este ponto pode ser, literalmente, uma lavandaria no subúrbio ou um quiosque obscuro e bafiento, dentro de uma loja de animais, que só abre entre as 10h e as 12h, excepto feriados e fins de semana. Outro clássico: notificam-te que a encomenda foi deixada com um vizinho… mas qual? Não há nome, só um número: “Entregue ao 58”. Só que tu moras no 22, e cada prédio tem 8 andares.

E depois há o inverso: tentar enviar uma encomenda. Parece fácil – até veres os preços. Mandar um envelope almofadado da Bélgica para Portugal pode custar mais do que o seu conteúdo. Um pequeno pacote, com o peso de uma sandes, pode ultrapassar os 20 euros. Há voos low cost mais baratos, às vezes pode compensar ir entregar o pacote pessoalmente…

No fim disto tudo, dás por ti a suspirar por um aviso dos CTT. Simples, impresso, com letras tortas, mas fiel. E pelo senhor de colete refletor que te chama pelo nome, fala com o teu cão e te deseja bom dia. Quem diria que um português haveria de ter saudades… dos correios?

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