diario as beiras
opiniao

Opinião: Do saber ao fazer: A urgência da integração prática no Ensino Superior

06 de maio de 2025 às 10 h16
0 comentário(s)

Durante décadas, o sistema educativo português — e, em larga medida, o europeu — tem estado centrado na transmissão de conhecimentos teóricos, frequentemente descolados da realidade prática e das exigências do mercado de trabalho. O ensino, em todos os seus níveis, tornou-se refém da compartimentalização disciplinar, da avaliação formal e da ilusão de que o saber, por si só, é suficiente para garantir o sucesso profissional.
Mas afinal, poderá alguém aprender a nadar apenas com um livro?
Esta metáfora expõe a fragilidade de um modelo que negligencia a aprendizagem pelo fazer, pelo erro, pela experiência em cenário real.
Com a dinâmica atual e a digitalização as escolas correm o risco de formar profissionais para um mundo que já não existe. Os currículos tendem a ficar rapidamente desatualizados, centrados em conteúdos irrelevantes ou desfasados das práticas atuais do setor. Pior ainda, há uma desconexão profunda entre os diferentes níveis de ensino: o ensino básico prepara para o secundário, que prepara para a universidade, mas nenhum deles, necessariamente, prepara para a vida ativa. Esta cadeia de ensino, segmentada e hierarquizada, tende a perpetuar a ideia de que a prática só é relevante no final do percurso educativo. No entanto, os desafios atuais — da digitalização à sustentabilidade, da automação à economia circular, e até da simples cidadania ativa — exigem uma formação que combine teoria com prática desde os primeiros anos. A educação deve ser pensada como uma espiral integrada, onde os diferentes níveis dialogam e se reforçam reciprocamente.
Desde logo as escolas profissionais têm um papel privilegiado neste cenário, ao proporcionarem aos alunos uma formação técnica aliada a estágios e experiências práticas. No entanto, muitas vezes, estas experiências são limitadas pela falta de ligação com o tecido empresarial real (apenas sala de aula), pelo excesso de burocracia ou pela ausência de acompanhamento estruturado.
No caso das escolas de Ciências Empresariais, onde se enquadra a Coimbra Business School|ISCAC, a criação de “empresas-escola”, com atividade económica real, supervisionada pedagogicamente, pode ser um passo decisivo. Estas estruturas permitiriam que os alunos se envolvam em processos de produção, comercialização, gestão e inovação de forma direta, sob orientação de profissionais experientes e de professores. Tal como as escolas de medicina utilizam hospitais-escola (quase único exemplo institucionalizado), as outras escolas podem criar oficinas, lojas, serviços e startups internas, com impacto real na economia local e na comunidade.
O ensino superior tem, por vocação, formar quadros técnicos e científicos de elevado nível. No entanto, muitos cursos continuam excessivamente teóricos, desfasados da realidade das empresas e da dinâmica social. O conceito de “universidade empreendedora” ainda é incipiente em muitas instituições, apesar de alguns polos de inovação e de incubadoras, sobretudo por falta de financiamento e de recursos.
As universidades e politécnicos devem assumir a sua “tripla missão”: ensino, investigação e envolvimento com a comunidade. Este último pilar inclui a promoção do empreendedorismo jovem, o apoio à criação de empresas por parte dos alunos (startups e spin-offs) e a transferência de conhecimento e tecnologia para o tecido económico e social. Para isso, é fundamental criar estruturas de apoio, como acesso a laboratórios, equipamentos, licenças de software; programas de aceleração; gabinetes de empreendedorismo, fundos, capital universitário, mentoria e ligação com redes de investidores.
A promoção da criação do próprio emprego deve ser uma prioridade estratégica. A juventude portuguesa é criativa, inovadora e resiliente, mas muitas vezes carece de oportunidades concretas para transformar ideias em projetos sustentáveis. Através das escolas profissionais e universidades, podem ser criadas verdadeiras “fábricas de empresas”, onde o aluno passa de aprendiz a empreendedor.
As “spin-offs universitárias”, por exemplo, são empresas criadas a partir de conhecimento gerado na academia, geralmente com base em investigação aplicada. Este modelo pode ser replicado também no ensino profissional, nas áreas da mecânica, eletrónica, agronomia e ambiente, design, turismo e tantas outras. Para isso, é essencial uma política com incentivos, com benefícios fiscais, apoios à incubação e reconhecimento académico da atividade empreendedora.
Um dos grandes benefícios da integração prática no ensino é o seu impacto direto nas comunidades locais. Ao criar empresas-escola, laboratórios vivos ou projetos empreendedores, as instituições de ensino tornam-se motores de desenvolvimento regional. Podem apoiar microempresas locais, dinamizar o comércio, gerar emprego e combater o despovoamento. A escola deixa de ser um espaço isolado para se tornar um polo de inovação e coesão territorial.
Para viabilizar este modelo, é necessário além de repensar a forma como valorizamos e financiamos as escolas desmistificar o medo/dificuldade de criar uma empresa. Hoje, assiste-se a uma perceção de complexidade burocrática e de grande investimento para a criação de empresas facto que só poderá ser mudado com o conhecimento prático do saber fazer da experiência. Assim, a atividade empreendedora em contexto escolar deve ser reconhecida como relevante, tanto do ponto de vista pedagógico quanto económico. Propõe-se a redução de encargos para empresas-escola em fase de arranque; o reconhecimento das atividades empreendedoras como parte integrante da avaliação institucional e curricular dos cursos; a valorização de parcerias para cofinanciamento de estruturas escolares inovadoras nas candidaturas a projetos e concursos.
Estamos perante uma oportunidade histórica de transformar o sistema educativo, aproximando-o das necessidades reais da sociedade. A integração de práticas empresariais no percurso educativo não é apenas uma estratégia pedagógica, mas um imperativo económico e social. A formação do futuro exige que também saibamos criar, errar, experimentar, gerir e inovar. O conhecimento ganha sentido quando é aplicado. E só assim poderemos formar cidadãos completos, profissionais competentes e empreendedores transformadores.
As escolas do futuro não são apenas locais de aprendizagem. São simultaneamente espaços de vida, de trabalho, de criação e de impacto.

Pode ler a opinião na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

Autoria de:

Opinião

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao