diario as beiras
opiniao

Opinião: Discursos convenientes têm uma força de lei

06 de fevereiro de 2026 às 12 h03
0 comentário(s)

O jornalista perguntou ao homem de 97 anos :
– você já viu alguma tempestade desta envergadura? Lembra-se de algo parecido?
O homem pensou segundos e disse que sim. Lembrava aos nove anos um ciclone que arrasara Penamacor, e depois ainda tinham vindo as chuvas e inundado os terrenos todos.
O jornalista queria vender a força desta tragédia, queria falar de alterações climáticas, de como nada acontecera como desta vez. O homem de 97 anos recordava 1941 quando um desastre épico aconteceu naquela zona. A conversa terminou logo, sem mais delongas, que os factos destruíam a narrativa. Senti a frustração do jornalista e percebi que se não fosse em directo aquele depoimento seria apagado e nunca se ouviria. De facto também lembro nevões históricos em 1989 na cidade da Guarda. Não os referem nestes dias senão como notas de rodapé.
A natureza com maior ou menor frequência regressa aos lugares que lhes roubamos, ocupa os leitos de cheias, zanga -se com barragens e alterações de curso de rios. Assim acontecem as tragédias de Valência, a desgraça de Leiria. A previsão ajuda a conter parte da desgraça, mas a força bruta da natureza é implacável, sem simpatia, sem compreensão. Sempre houve tremores de terra, inundações, tempestades. Há lugares onde são mais frequentes e outros mais serenos, mas construir edifícios em leito de cheias é fazer habitação temporária. Colocar estruturas que podem voar longe da proteção de encostas ou sem o reforço dos dias maus é uma relação normal com a possibilidade da destruição. Usar estruturas a embelezar edifícios é convidar ao seu arrancamento em ciclone.
Não ter seguros é poupar nos valores errados. Um seguro é como um alarme. Pagamos para que não toque, não seja necessário.
O problema das narrativas é a garantia de que os discursos convenientes têm uma força de lei. É importante para os negócios certificar, e depois dificultar que outros o consigam. Temos de certificar que o contraditório de uma certificação não se levanta. Temos de destruir os mensageiros para calar as mensagens.
– ainda há quem negue o aquecimento global e as alterações climáticas! Afirmava o gestor da Brisa, ex-líder de um partido em desaparecimento, ex-governante.
Sim, é importante haver sempre quem negue. Sim, é essencial apoiar minorias para que a discussão continue, a apresentação de factos não esmoreça, a investigação não pare.
A realidade tem construído surpresas às mais intocáveis discussões. Onde se pensou cinza já se encontrou amarelo, onde acreditámos que era um gene já apareceu um vírus, onde se garantia a vantagem do leite ele mostrou-se ma companhia.
O jornalismo carece de liberdade, sobretudo daquela que vem da independência, da força da tolerância e da dúvida garantida.

Autoria de:

Opinião

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao