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Opinião: Boas ideias e como atingi-las

24 de junho às 08h58
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Miss Marple, a famosa personagem de Agatha Cristie, é conhecida por resolver os mistérios mais intrincados recorrendo ao microcosmos da sua pequena aldeia de St. Mary Mead. A arguta velhinha mantém para si própria que a natureza humana é a mesma em toda a parte, pelo que lhe basta correlacionar os dados do crime a resolver com a imensa informação resultante da observação da humanidade na sua aldeia. Já Qohélet, o Eclesiastes, expunha no prólogo do seu livro bíblico uma doutrina semelhante:

“Aquilo que foi é aquilo que será; aquilo que foi feito, há-de voltar a fazer-se: e nada há de novo debaixo do Sol! Se de alguma coisa alguém diz: “Eis aí algo de novo!”, ela já existia nas eras que nos precederam.”

Marple e Qohélet são dois assumidos pessimistas no que à possibilidade de progresso da natureza humana e da humanidade diz respeito. Uma abordagem mais razoável e realista encontra-se porventura na resposta que Einstein terá formulado a quem lhe perguntava se tinha um livro de apontamentos para tomar nota das grandes ideias novas que lhe fossem surgindo: “Só tive uma.” Em outra ocasião, exprimia melhor o alcance desta resposta sobre os limites do conhecimento, quando afirmava “Uma coisa aprendi numa longa vida: toda a nossa ciência, confrontada com a realidade, é primitiva e infantil. Contudo, é aquilo que temos de mais precioso.”

O contraponto espiritual desta resposta einsteiniana encontra-se num episódio, relatado por S. Jerónimo, sobre o velhinho S. João Evangelista: “Para o fim da vida, quando estava tão enfermo que tinha de ser transportado para a igreja e estava demasiado fraco para pregar, costumava dizer apenas o seguinte: “Meus filhos, amai-vos uns aos outros”. Os ouvintes acabaram por ficar impacientes e disseram-lhe: “Mestre, porque repetes sempre a mesma coisa?” “É o mandamento do Senhor”, replicou, “e se fizerdes apenas isto, é suficiente”.”

Não há assim necessidade de grandes sermões nem de livrinhos de apontamentos para ideias mirabolantes: as boas ideias e os bons conselhos (os que de facto contribuem para o progresso da humanidade) são escassos mas importantes. Requerem reflexão constante, trabalho árduo e permanente ligação à realidade (“a mais fértil das imaginações”). Todos beneficiamos, contudo, dessa sabedoria acumulada, que nos permite “subir aos ombros dos gigantes” que nos antecederam. Conforme bem sabem aqueles que trabalham na fronteira do conhecimento, com os professores à cabeça, este montanhismo intelectual e espiritual requer não pouco esforço, para desapontamento de todos os adeptos do “pronto-a-vestir”.

Não basta estar alfabetizado para estar preparado para ler, entender, interiorizar e, no limite, superar as obras clássicas onde assenta o conhecimento e a cultura, da filosofia à religião, da ciência à tecnologia.

Não é por acaso que as “teorias da conspiração” e os negacionismos ideológicos (dos criacionistas às epifanias do género) tendam a surgir no ponto de intersecção de uma educação medíocre com uma soberba ilimitada. Conforme recomendava sabiamente Camões a D. Sebastião: “Tomai conselho só d’ exprimentados,/ Que viram largos anos, largos meses,/ Que, posto que em cientes muito cabe,/ Mais em particular o experto sabe.”

Autoria de:

Rui César Vilão

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