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Opinião: Assuntos tabu

12 de dezembro de 2025 às 12 h04

A utilização massiva de anticoagulantes e antiagregantes tornou-se uma exigência das entidades construtoras de linhas de orientação clínica, como mecanismo de prevenção primária de incidentes graves. Um cardiologista terá dificuldade, junto dos seus pares, se não cumprir a norma, portanto, não prescrever.
É uma conduta que vem na linha da saúde pelo medo. Sempre se galgam as barreiras de aceitação se condicionadas pelos pós do pânico. Podes morrer se não fizeres. Podes ter um enfarte se não tomares. A questão é mais um processo que uma medicina baseada em seja lá o que for. Cautelarmente aplica-se o protocolo. O protocolo enche os bolsos das farmacêuticas e de alguns dos seus mais conhecidos defensores.
A prevenção primária é a que está depois da linha social, aquele gesto de prevenção que institui condutas para uma vida saudável. Reduzir as gorduras, fazer algum exercício, beber mais água, reduzir ou evitar açúcar e sal, manter peso ideal, não fumar, não beber refrigerantes nem álcool. Aqui os investimentos legislativos são peculiares. Comparando com o exercício ditatorial das normas médicas, aqui ninguém pune porque se vendem farturas cheias de óleo. Ninguém verifica se os restaurantes cumprem normas, se os cidadãos prevaricam. Sempre defendi que um utente gordo que perde sustentadamente peso, ou para de fumar, deve ter benefícios fiscais ou mesmo prémios monetários de incentivo. Prevenir as doenças deve ser antes da sua instalação.
Prevenir secundariamente é actuar sobre riscos após diagnóstico. Na prevenção primária há um maná para as farmacêuticas. Pode morrer!
Mas o colesterol mata todas as pessoas que o tiverem alto? Não! Perentoriamente, não! Há pessoas jovens que possuem uma tendência para o aparecimento de placas de ateroma nas suas artérias, infelizmente independente dos seus hábitos saudáveis, que condicionam um risco maior de acidentes vasculares. Isto acontece porque surgem estenoses ao fluxo e quando se precisa de mais oxigénio ele não chega provocando isquemia. Mas porquê? Sabemos ainda pouco desta condição de aderência ou de deposição de aterosclerose. Falta um detergente para limpar estas gorduras e falta encontrar o enzima que provoca a condição. Assim, temos milhões de pessoas com colesterol alto que não têm ateromatose nem inflamação endotelial, nem flaps da parede arterial e portanto de risco não acrescentado. Temos aqueles com colesterol no padrão referido como normal, mas que estão pejados de aterosclerose. Todos eles, nas políticas de prevenção primária cumprem protocolos. Se instituídos mecanismos de avaliação de risco e provada presença de problemas condicionando variação casuística, então a medicação protectora tem um fim claro e vantagens indiscutíveis.
A medicina está a trilhar outros caminhos e portanto transporta medicação a quase todos convocando para o problema da iatrogenia. Cada fármaco tem seus efeitos secundários. Vejamos os anticoagulantes massificados. Hoje, talvez vinte por cento dos atendimentos de idosos em urgências devem -se ao protocolo de “traumatismo em idoso a tomar anticoagulantes” enchendo os artigos de macas e de longas estadias em urgências. Uma conta que não se faz em gastos, nem em mortos por hemorragia subdural aguda (condição induzida pela queda sob anticoagulação) nem no incomodo institucional de recursos envolvidos. Ganha o protocolo farmacêutico. Uma pessoa demente de mais de 85 anos vai ser operada por neurocirurgia? Todos sabem que a resposta é um redondo não pelo risco de mortalidade. Então para que se faz o protocolo? Então para que se medica de modo arriscado? Então porque não se deixa o critério ao médico como sempre foi e não à norma? Assim se introduziu o medo no gesto médico. Assim se induziu o medo nos doentes. Assim se constrói um percurso sem rumo certo.

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