Opinião: A Suíça que derrete
Blatten já não existe. Era uma aldeia alpina tranquila, escondida no cantão do Valais, onde tudo parecia imutável. Até que, numa madrugada de maio passado, o glaciar de Birch colapsou. Nove milhões de metros cúbicos de gelo, rocha e lama desceram a montanha, engolindo casas, estradas e memórias. A terra tremeu e o país acordou para um sobressalto raro: a montanha afinal cai.
Durante décadas, os glaciares suíços foram símbolo de estabilidade e identidade nacional. Mas estão a desaparecer e a fazê-lo de forma imprevisível. A imagem recente é desconcertante: blocos de gelo transformados em “queijo suíço”, ocos por dentro, prontos a desabar.
A ciência já alertava, mas o conforto suíço é feito de prudência, não de urgência. Agora fala-se em radares, planos de evacuação, sensores sísmicos quando o que está em causa é muito maior: o colapso silencioso da ideia de segurança. A neutralidade suíça, tão eficaz em geopolítica, não serve para lidar com a crise climática.
O glaciar não pede licença, não vota, não espera. Derrete. Blatten é um aviso. Não só climático, mas existencial. Quando até os Alpes se movem, o que fica da nossa ideia de país sólido, imperturbável, eterno? Talvez a Suíça precise reaprender a ler a montanha. Não como paisagem, mas como profecia.
