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Opinião: A Suíça que derrete

30 de junho de 2025 às 09 h10

Blatten já não existe. Era uma aldeia alpina tranquila, escondida no cantão do Valais, onde tudo parecia imutável. Até que, numa madrugada de maio passado, o glaciar de Birch colapsou. Nove milhões de metros cúbicos de gelo, rocha e lama desceram a montanha, engolindo casas, estradas e memórias. A terra tremeu e o país acordou para um sobressalto raro: a montanha afinal cai.

Durante décadas, os glaciares suíços foram símbolo de estabilidade e identidade nacional. Mas estão a desaparecer e a fazê-lo de forma imprevisível. A imagem recente é desconcertante: blocos de gelo transformados em “queijo suíço”, ocos por dentro, prontos a desabar.

A ciência já alertava, mas o conforto suíço é feito de prudência, não de urgência. Agora fala-se em radares, planos de evacuação, sensores sísmicos quando o que está em causa é muito maior: o colapso silencioso da ideia de segurança. A neutralidade suíça, tão eficaz em geopolítica, não serve para lidar com a crise climática.

O glaciar não pede licença, não vota, não espera. Derrete. Blatten é um aviso. Não só climático, mas existencial. Quando até os Alpes se movem, o que fica da nossa ideia de país sólido, imperturbável, eterno? Talvez a Suíça precise reaprender a ler a montanha. Não como paisagem, mas como profecia.

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