opiniao

Opinião: À Mesa com Portugal–Ser de Coimbra

05 de dezembro de 2025 às 12 h03

Entre o ser de Coimbra e ser coimbrinha, entre o Dr. autoritário e impositivo de uma coisa qualquer, entre o ser das berças ou da serra e disfarçar a todo o custo o sotaque. O que é uma coisa que me espanta, pois Coimbra, na sua essência geográfica, é um terço serra, outro terço monte e um outro vale. Não se fez sem o que desceu da montanha, nem do que subiu do vale. Muitos que, hoje, são de Coimbra, num outro tempo foram de outro sítio qualquer. Coimbra fez-se das diferenças que a circundam e, talvez por isso, tenha crescido, de resto como todas as cidades que se alimentam das periferias e crescem com elas de forma simbiótica.
Ser coimbrinha é já outro patamar, é aquele que ficou fechado entre o privilégio de uma cidade excessivamente pequena habituada a viver do apelido que ostenta como se fosse uma coroa ou de alguma filiação política, partidária, desportiva, religiosa ou civil. Sobem-se as escadas com a ajuda de uma qualquer muleta e respira-se sempre com aquele ar balofo e carregado sem perceber muito bem o que é a vida.
Engraçado que, em algumas conversas, me parece que estou num ambiente queirosiano de lamento profundo e desanimado do que não conseguimos mudar ou da crítica ácida e despudorada que põe a nu o que a cidade é.
Mas, felizmente, que a cidade, aos poucos, se vai libertando desse tom coimbrinha, afamado pelo que impede e constrange. Vamos sentindo um respirar aberto, mais leve, mais disponível para sentir os arredores, até porque os arredores, em algumas situações cresceram e tornaram-se pontos centrais por eles próprios. É claro que, volta e meia, vem o poder instalado, os pergaminhos disto e daquilo, mas há sempre um rastilho de resistência, um caminho de independência, uma força invisível humanista que faz a justiça silenciosa que a injustiça visível procura calar.
A trabalhar fora do ambiente profissional de Coimbra, quando me perguntam a minha origem, refiro, naturalmente, Tentúgal e, depois, Coimbra. Com muito orgulho sou de Coimbra. No que a cidade me ofereceu, no que a cidade me obrigou a distanciar. Sempre na certeza de que Coimbra é a cidade do Mondego, e este, ainda que aprisionado pelo açude, deitando um fluxo a conta gotas sempre que alguém decide, caminha para o mar, para um mundo feito de diferentes destinos. É assim, também o espírito da nossa cidade que toma, gradualmente, o pulso do seu destino e pensa mais longe sem medo do que está à sua volta. Eu gosto de ser de Coimbra.

Pode ler a opinião de Olga Cavaleiro na edição impressa e digital de hoje, 05/12/2025, do Diário As Beiras

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao