Opinião: A inquietação nacional
O desassossego nacional dos últimos dias define bem a nossa alma pátria. Para o bem e para o mal, somos uma nação de “afetos” que se emociona coletivamente todos os dias, entre a glória e o desespero, a solidariedade e a repugna. Com a distância de quem vive fora de Portugal há já 5 anos, é muito evidente o “desassossego permanente” da nação como bem retratou Fernando Pessoa.
Para mim, acompanhar notícias de Portugal hoje em dia, é saciar a minha necessidade de participar desse desassossego coletivo em que cresci e que faz de mim português. É saber que me reconecto com aquela “arte de ser português” que Teixeira de Pascoes bem descreve quando refere que o “povo português é, essencialmente, um povo que sente” e que vive menos na realidade exterior das coisas do que no mundo interior das emoções. É verdade que os tempos são de mudança e disrupção do status quo.
É verdade que a política portuguesa conhece hoje uma nova realidade, e que isso por si só, é já um fardo difícil para a república dos capitães, tenentes, cabos e soldados partidários que sempre se tiveram como insubstituíveis. No entanto, a vida política mudou. E mudou pela mesma via que sustentou 50 anos de “bipartidarismo”: democracia.
Uma vez mais, digerir isto leva tempo para um povo que como o nosso que vive diariamente entre a saudade do que foi e a inquietação do que será. É nesta dualidade que nos define que é interessante acompanhar a hipersensibilidade coletiva dos tempos presentes que a cada vírgula do debate parlamentar reage com uma onda de indignação nacional para essencialmente e regra geral, nada mudar. Não que o conteúdo não seja merecedor de animosidade, mas a capacidade de entrarmos em estado de choque nacional todos os dias continua a ser verdadeiramente notável e original. Nem o coração de um poeta concentra tanta energia emocional ou aguenta tamanha intensidade permanente.

