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O Doutor Newman

10 de novembro de 2025 às 11 h38

No passado dia 1 de novembro, o papa Leão XIV declarou solenemente S. John Henry Newman como doutor da Igreja. Trata-se de uma indicação reservada apenas a santos que se considera terem dado uma contribuição excecional para o desenvolvimento da teologia e da doutrina cristãs. Uma espécie de prémio Nobel ou doutoramento honoris causa (necessariamente póstumo) da teologia católica.

Esta distinção remonta pelo menos a 1295, quando o papa Bonifácio VIII declarou os primeiros quatro doutores da Igreja (Santo Agostinho, São Jerónimo, São Gregório Magno e Santo Ambrósio).

O percurso de John Henry Newman é singular: nascido em Londres em 1801, torna-se sacerdote anglicano em 1824. Professor na Universidade de Oxford, é indicado em 1828 pelo Oriel College para vigário da importante igreja universitária de Santa Maria, que remonta à própria fundação da universidade (no século XII). Em Oxford, Newman faz um percurso intelectual e espiritual que inicialmente o conduz desde o anglicanismo evangélico, fortemente assente nos ensinamentos dos reformadores protestantes até ao anglo-catolicismo, que defende a continuidade na Igreja de Inglaterra da Igreja anterior à Reforma protestante.

Neste percurso, Newman torna-se um dos principais impulsionadores do Movimento de Oxford que conduziu a uma profunda renovação na Igreja anglicana, baseada no estudo da Igreja primitiva. Segundo os proponentes deste movimento, o anglicanismo, o catolicismo e as igrejas ortodoxas do Oriente constituem os três ramos da única Igreja presente no fundamental Concílio de Niceia ocorrido em 325 (cujo 1700º aniversário se comemora este ano).

O estudo aprofundado do desenvolvimento da doutrina da Igreja durante os primeiros séculos e durante a Idade Média conduziu Newman em direção a Roma. Esta aproximação, que culminaria na sua conversão ao catolicismo em 1845, não se fez sem dor. O longo processo interior é descrito pelo próprio Newman na extraordinária autobiografia espiritual “Apologia pro vita sua”, que redige em resposta às fortíssimas críticas de que é naturalmente alvo após a sua integração na Igreja Católica. Em um dos momentos-chave, afirma: “A Antiguidade era o meu baluarte; aqui, no meio do século V, encontrava refletida, segundo me parecia, a Cristandade dos séculos XVI e XIX. Vi a minha face nesse espelho, e eu era um Monofisita.” (o monofisismo foi uma das múltiplas hipóteses teológicas descartadas nos tempos primitivos do Cristianismo).

Esta crença de Newman nos mais vetustos fundamentos da Igreja parece pouco avisada num século de grande progresso material e tecnológico como foi o séc. XIX e ainda menos prudente no séc. XXI. No entanto, é destas fontes antigas que flui mais limpidamente a mensagem transmitida por Cristo. Tantas e tantas “pessoas de bem” empenhadas durante séculos em transformar esta mensagem de amor em discurso e atos de ódio trouxeram-lhe muitas cicatrizes, mas não a conseguiram nem conseguirão apagar.

Além disso, apesar dos desenvolvimentos técnicos, a -natureza humana não é hoje muito diferente da do nosso antepassado ereto e trémulo que um dia começou a descascar pedras de sílex. Ou, como dizia o cartoonista Quino através da sua extraordinária Mafalda: “Desde o arco e flecha até ao foguetão teleguiado, a técnica evoluiu surpreendentemente. Mas é deprimente verificar quão pouco evoluíram as intenções…” S. John Henry Newman, ora pro nobis!

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