“O desafio do paracetamol: morrer por um like
O “desafio do paracetamol” nasceu nas redes sociais em 2023, quando adolescentes começaram a filmar-se a ingerir grandes quantidades deste fármaco numa espécie de competição. Ganhava quem ficasse mais tempo hospitalizado ou quem resistisse sem ir ao hospital. Em agosto desse ano, nos Estados Unidos, um adolescente de 13 anos morreu na sequência de um desafio semelhante.
A tendência atravessou o Atlântico e espalhou-se pela Europa. Em Espanha, foram registadas várias admissões de adolescentes com intoxicação grave. A França, a Alemanha, a Bélgica, a Suíça e a Eslovénia emitiram alertas formais. No Hospital Sta Maria, em Lisboa, as intoxicações medicamentosas voluntárias em jovens passaram de 59 em 2024 para 72 em 2025, e ainda há dias uma adolescente deu entrada com uma ingestão de 10 g. de paracetamol!
Quando um jovem chega à urgência nestas circunstâncias, há sempre quem diga: “Divertiu-se a brincar e não teve juízo.”
Não. Trata-se de uma falha nossa. De todos nós.
Clinicamente, o paracetamol é seguro se usado corretamente. Em sobredosagem, é traiçoeiro e letal. Nas primeiras horas, o adolescente até pode parecer bem, a rir e a mandar mensagens. Entretanto, o fígado já está a ser destruído em silêncio. Quando os sinais surgem, pode já não haver volta.
O que me inquieta não é apenas o comportamento imitativo. É a banalização. Jovens a filmar a própria ida ao hospital como se de conteúdo se tratasse. O cérebro adolescente ainda está em construção. Quando esse cérebro se depara com algoritmos feitos para o manter colado ao ecrã, o resultado é previsível.
Mas seria desonesto responsabilizar apenas as plataformas. A literacia digital continua a ser tratada como um extra. Estamos a lançar crianças na autoestrada digital sem carta de condução e depois espantamo-nos com os acidentes.
A resposta legislativa é importante. Mas nenhuma lei substitui uma coisa muito simples e muito difícil: a presença. A conversa ao jantar. A pergunta “o que estás a ver no telemóvel?” feita com genuíno interesse. Não existe tecnologia que substitua o diálogo.
E há um ponto essencial, o médico de família que questiona a vida digital do adolescente, a escola que informa, a família que acompanha, a comunidade que atua. Somos muitas vezes a primeira linha de contacto com estes jovens.
A questão de fundo é desconfortável. Estamos prontos para proteger quem não tem maturidade para se proteger? Uma sociedade que não cuida dos seus mais jovens precisa de se interrogar sobre o que realmente valoriza.”
