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Memórias de Ormuz (parte 7)

17 de abril de 2026 às 11 h45

Estava nervoso, com medo de perder o último ferry que me levaria de Ormuz de volta para Bandar Abbas. O tempo já não contava a meu favor, e o sol que queimava a pele também não era convidativo para fazer novamente o percurso de regresso até ao pequeno porto marítimo. E pelo meio ainda correria o risco de desfalecer sem acesso a água.

 

O funcionário do forte percebeu tudo isso, talvez porque estivesse espelhado na minha cara de preocupação, sabia qual era o meu destino, e deu-se ao trabalho de se oferecer para me levar até lá. A sua mota arrancou logo à primeira. A julgar pelo brilho que tinha, sem nenhum risco de maior a registar, compreendia-se que a tratava como um filho. Foi complicado equilibrar-me, tendo em conta que tinha de fazer um difícil equilibrismo a que a minha mochila e equipamento fotográfico obrigavam.

 

Desenrasquei-me, e lá fizemos os primeiros metros quase em modo gincana até nos adaptarmos e seguirmos com alguma estabilidade. Depois da tempestade, veio a bonança. O medo já tinha ficado para trás, e agora desfrutava do percurso como pendura de alguém que que era muito sociável naquela terra. Acenava a todos, e assim era também retribuído. Comecei a sentir-me também à vontade para me equilibrar e começar a fotografar esta interação tão espontânea.

 

Há amigos a esbracejar enquanto se cruzam, ou passam por nós, com sorrisos quase de orelha a orelha. Ainda consegui avistar algumas mulheres que usam o traje típico desta região do país, onde sobressai uma máscara, a batoola, o que lhes dá um ar exótico e enigmático. A maior parte das pessoas que tinha visto horas antes desapareceram. O calor da tarde não perdoa, e os únicos resistentes são mesmo um rebanho de cabras que continuava a pastar, indiferentes a tudo o que se passava à sua volta.

 

Consegui chegar a tempo de apanhar o barco. Despedi-me deste homem que me ajudou e deixei novamente a terra firme. Era momento de regressar ao continente para depois prosseguir viagem para os Emirados Árabes Unidos. Enquanto me afastava, olhava para a velha fortaleza portuguesa, esperando que num futuro próximo fosse alvo de obras de restauro. Compreendi o significado e o valor desta feitoria.

 

Hoje, Ormuz está nas capas dos jornais. A sua posição estratégica mostra como, há meio milénio, Afonso de Albuquerque sabia muito bem o que estava a fazer quando aí impôs a bandeira portuguesa.

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