Licores, das origens medicinais, bebida requintada
Licor é uma bebida espirituosa doce com um teor alcoólico mínimo de 15% vol., obtida pela aromatização do álcool etílico de origem agrícola, por via da maceração ou destilação, e sabor variável.
A abordagem ao estudo dos licores implica um recuo à Antiguidade, mais concretamente à época romana. Entre as primeiras preparações com características próximas dos licores destaca-se o “melicrato”, uma bebida obtida a partir da mistura de água, vinho e mel, sujeita a fermentação com o objetivo de adquirir algum teor alcoólico. Já na Idade Média, o “hipocraz” assumia particular relevância como bebida doce, sendo elaborado com vinho aromatizado com especiarias e adoçado com mel.
Estas preparações podem ser entendidas como precursoras dos licores modernos. A introdução do alambique como conhecemos, desenvolvido pelos muçulmanos no século IX, constituiu um marco determinante na evolução das técnicas de produção, permitindo o desenvolvimento de bebidas espirituosas mais complexas através da destilação. Paralelamente, a progressiva utilização do açúcar — até então um produto de luxo reservado a elites — veio transformar significativamente as práticas de fabrico.
Numa fase inicial, os licores desempenharam sobretudo funções medicinais. Designados como “licores cordiais”, eram preparados por comunidades monásticas e, posteriormente, por farmacêuticos, sendo utilizados com finalidades terapêuticas diversas, nomeadamente como estimulantes, revitalizantes ou auxiliares digestivos.
Com o declínio da sua importância no contexto farmacêutico, assistiu-se à disseminação da produção doméstica e ao surgimento de pequenas unidades industriais. Na região de Coimbra conhecemos um exemplo curioso deste fenómeno. No Arquivo Municipal de Coimbra o “Diário da Receita e Despesa de uma Pequena Indústria de Licores” oferece um testemunho significativo sobre a organização e funcionamento de uma unidade produtiva da época entre os anos de 1852 e 1879.
Embora se trate predominantemente de um registo contabilístico, a análise das matérias-primas adquiridas — como aguardente bagaceira, aguardente de medronho, canela, café, anis e diversas essências — bem como das quantidades comercializadas, permite inferir a produção de diferentes tipologias de licores, entre os quais se destacam os de café, anis, lima, limão, canela e marasquino. Estes seriam, muito provavelmente, destinados a um consumo de âmbito regional.
No contexto nacional, merece destaque o caso do Licor Beirão, cuja origem remonta a uma farmácia, onde era inicialmente produzido a partir de ervas e comercializado como preparado medicinal. Após sucessivos ajustamentos à sua fórmula, este licor viria a afirmar-se como um dos mais reconhecidos em Portugal e além-fronteiras, sendo atualmente produzido na Lousã.
De carácter mais regional, chega-nos de Febres, Cantanhede, notícias de um licor surgido nos inícios do século XX, produzido por muitos dos taberneiros aí existentes e consumido pelos locais, tendo por base o café, a aguardente bagaceira e o açúcar e com o nome de código Lifrèu, atualmente recuperado e comercializado por uma família da região.
