Pelos arrozais de Mai Chau – Vietname – 2025
Sou acordado pela voz grossa e estridente da funcionária do comboio que ecoa por toda a carruagem a anunciar que estamos a chegar a Ninh Binh, uma cidade que fica a sul de Hanói. Teria de sair aqui para continuar a viagem para o interior de um país de que, até ao momento, só conhecia a sua zona litoral.
Eu queria ir para Mai Chau, uma paragem bem mais calma, e distante, e com menos visitantes, mas com um rol de lugares que desde cedo me chamaram à atenção.
Não há transportes públicos a essa hora, os taxistas sabem disso e acercam-se de mim como abutres à espera da sua carcaça. A internet é barata e compensa comprar um cartão para estar conectado, algo muito útil para quem recorre a aplicações de transportes como o Grab ou o Xanh SM. Foi assim que consegui um valor mais em conta para uma viagem de três horas por um cenário cada vez mais verdejante, seguindo através de vales que nunca mais acabavam, e sempre com campos de bananeiras a bordejar o caminho.
A paisagem vai ficando mais cinza, e a chuva começa a cair. É sob esses pingos quentes que chego finalmente ao destino. A fome fala mais alto, e não saio de lá sem comer primeiro uns noodles com vegetais e frango, acompanhados de pão bem fresco e de um sumo natural de ananás, acabado de descascar, para empurrar um prato tão simples, mas que me soube tão bem. “A fome é o melhor tempero”, diz a sabedoria popular.
Agora sim, é momento de partir à descoberta dos campos de arroz que abundam por aq15ui, e que eu tanto queria fotografar. Pago três euros para alugar uma acelera para o dia inteiro. Segui assim, como gosto: livre, sem mapa, seguindo apenas o instinto. Vale a pena sair do centro e perder-me por pequenos caminhos usados pelos camponeses locais nas suas idas para aquelas terras onde passam dias a fio a plantar de uma forma muito minuciosa o arroz de que o seu povo tanto precisa.
Paro junto de uma senhora idosa que estava alagada pelos tornozelos a fazer um gesto quase mecânico. Pegava num rebento de arroz que tinha guardado num alguidar de zinco que já acusava também a sua longevidade, para então o plantar de uma forma muito organizada num espaço que ia ganhando cor à medida que o seu esforço dava os seus frutos. Fazia-o com particular dedicação e amor, sabendo que o seu trabalho determinaria também a colheita de que tanto precisava para garantir o sustento da sua família. (continua)
