Levanta-te. Porque dormes?
O livro dos Salmos é sem dúvida um dos livros mais amados da Bíblia e uma das coletâneas poéticas de maior impacto na história da humanidade. Ao longo dos 150 salmos, todos os estados de alma do crente ali se encontram retratados. Conforme perguntava, retoricamente, Ambrósio de Milão: “Haverá alguma coisa que não encontres quando lês os salmos?”. O seu carácter poético e musical permitiu que estes textos se constituíssem em orações de eleição do povo de Israel e da Igreja sua descendente.
Assim, estes poemas constituem o núcleo da oração quotidiana da Igreja (a chamada Liturgia das Horas), bem como um profundo alicerce da espiritualidade cristã. Em tempos não tão recuados assim, em que a maioria da população não sabia ler, a oração popular substituiu os salmos por Avé Marias, constituídas em rosário (“jardim de rosas”) oferecidas à Virgem Maria. Este rosário era convenientemente dividido em três secções de 50 Avé Marias, constituindo um terço.
O salmo 44 (“Com os nossos ouvidos ouvimos, ó Deus!/Os nossos antepassados nos contaram/os prodígios que fizeste nos seus dias,/nos dias de antigamente.”) exprime eloquentemente a sensação coletiva de abandono sentida por tantos dos nossos concidadãos. Não por acaso, foi sobre este salmo que o Pe. António Vieira construiu o seu célebre “Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda”, numa altura em que o Brasil era atacado pelos holandeses.
Refletindo sobre a “piedosamente atrevida” súplica “Desperta, Senhor, porque dormes?”, Vieira genialmente conclui: “Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e, pois, eles se não converteram, quero eu, Senhor, converter-vos a vós. Tão presumido venho da vossa misericórdia, Deus meu, que ainda que nós somos os pecadores, vós haveis de ser o arrependido.”
Estas recriminações coletivas refletem frequentemente uma amnésia sobre o bem que já se recebeu, assim como uma cegueira sobre tudo o que de bom se passa à nossa volta, mesmo (sobretudo) em situações de aflição. Era assim para o povo de Israel libertado da escravatura do Egito e que, penando no deserto, preferia idolatrar bezerros de ouro. É assim para muitos que, rodeados de tanto bem construído coletivamente (escola pública, serviço nacional de saúde, meios públicos de assistência em situação de catástrofe), apenas veem a parte vazia do copo e idolatram cartazes sobre 50 anos perdidos.
Como de hábito em todos os salmos, mesmo os mais duros, o salmista termina sempre focado no essencial, suplicando: “Levanta-te para nosso auxílio/e resgata-nos pela tua misericórdia.” Também Vieira enfatiza este aspeto no fim do seu sermão.
Os últimos dias de aflição têm sido fecundos a ensinar-nos o poder divino destas ferramentas na construção e reconstrução de um futuro melhor, através das múltiplas iniciativas, públicas e privadas, para assistência às vítimas da intempérie. De facto, assim que aprendemos e nos dispomos a usar os atributos divinos da misericórdia e do amor como instrumentos do quotidiano, percebemos que é através de nós que Deus pode agir. Levantemo-nos, pois, e não durmamos em serviço.
