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Energia: o travão invisível da dupla transição

02 de abril de 2026 às 10 h15

A escalada de instabilidade no Médio Oriente voltou a colocar a energia no centro da agenda. Apesar da redução gradual da dependência de combustíveis fósseis, petróleo e gás continuam a ter um peso significativo no consumo. E bastam algumas semanas deste cenário de crise para que a fatura apareça nos combustíveis, nos transportes, na eletricidade.

O timing não poderia ser mais crítico. No momento em que ocorre, estamos na reta final de execução do PRR. Um plano, também ele, nascido de uma crise (pandémica). Nesta fase, quer-se execução. Mas execução é sinónimo de betão, de equipamentos, de serviços, de I&D. Tudo depende, direta ou indiretamente, dos custos da e

nergia. E os atrasos, neste momento, não são um mero inconveniente, podem ser fatais para os promotores e fazer perder de novo esta oportunidade.
Os danos recentes provocados pelas tempestades, em particular na região centro, afetaram a capacidade produtiva e a eficiência operacional de muitas empresas. Este novo “pico” de instabilidade, para quem está ainda a recuperar e com muito trabalho pela frente, pode ser suficiente para adiar decisões de investimento e alterar os planos. As empresas fazem cálculos aos custos de investimento e de operação, porque é necessário cofinanciar os projetos em curso. E com prazos rígidos até ao verão de 2026, esta instabilidade é um choque externo que condiciona o ritmo, o custo e a viabilidade de muitos investimentos.

O PRR foi desenhado para acelerar a dupla transição: a transição climática e a transição digital. Na transição climática, muitos dos investimentos – eficiência energética, energias renováveis, mobilidade, redes e infraestruturas – são intensivos em capital, materiais e energia.

A subida de combustíveis e de custos logísticos impacta no preço dos materiais de construção e na aquisição de tecnologia. Materiais e equipamentos importados chegarão, por regra, mais tarde e, seguramente, mais caros. E esta fatura pode não caber no preço final do projeto. O paradoxo desta situação pode mesmo ser crítico: por um lado, esta instabilidade demonstra que precisamos de descarbonizar, abandonando o petróleo e o gás, porque combustíveis mais caros dão argumentos à eletrificação; por outro e no curto prazo, torna-se inviável investir na descarbonização devido aos investimentos e ao tempo necessário para estes serem efetuados.

Na transição digital, também os custos de investimento e operação são impactados. Tecnologia importada fica mais cara e com prazos muito alargados. Data centers, clouds, redes, etc., têm energia embutida e consomem energia (muita). A digitalização precisa e também depende de energia acessível.
Todo este contexto reduz a atratividade dos investimentos. E se as taxas de juro subirem, então esta incerteza conduzirá seguramente ao adiamento de muitos projetos. Se esta crise no Médio Oriente se prolongar, poderemos ter de novo parte deste plano de recuperação adiado. Um choque energético prolongado pode dificultar a descarbonização (eletrificação) e, simultaneamente, encarecer e abrandar a digitalização.

A dupla transição continuará a avançar, mas ao ritmo da capacidade de execução. E, neste momento, a energia surge como um fator crítico – um travão invisível que pode não parar o processo, mas tem potencial para o desacelerar significativamente.

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