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Ansiedade: a nova norma?

22 de abril de 2026 às 11 h15

A ansiedade deixou de ser exceção para se tornar parte do quotidiano, com impacto na qualidade de vida, produtividade e relações interpessoais. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, em 2025, 39,4% da população com 16 ou mais anos apresentava sintomas de ansiedade generalizada (mais 7,4 pontos percentuais face a 2024) e 11,3% níveis mais graves. A prevalência era superior nas mulheres (46,2%) face aos homens (31,2%), diferença mais marcada nos casos graves (14,6% vs 7,2%). Observava-se também maior incidência na população idosa.
Os jovens adultos são particularmente vulneráveis. A instabilidade laboral, o difícil acesso à habitação e a pressão das redes sociais criam um contexto propício ao desenvolvimento de sintomas ansiosos. O contexto profissional, marcado por precariedade, falta de reconhecimento e exigências elevadas, contribui para o aumento do stress e do burnout. Apesar disso, muitos não procuram ajuda, devido ao estigma, às dificuldades de acesso e aos custos.

Persistem diferenças entre grupos. As mulheres apresentam níveis mais elevados de ansiedade, influenciados por múltiplos fatores de risco, do nível individual ao contexto social e estrutural. A sobrecarga entre trabalho e vida familiar, a maior carga emocional associada à gestão de múltiplos papéis e expectativas e as desigualdades laborais contribuem para este padrão. Acresce a violência doméstica, fator de risco relevante e ainda subvalorizado.

Nas pessoas mais velhas, as vulnerabilidades associadas às perdas ao nível da saúde, autonomia, rede social e rendimento aumentam o risco de ansiedade. O isolamento, a solidão e a redução de papéis sociais contribuem para um sentimento de inutilidade e insegurança. Dificuldades no acesso a cuidados e apoio social agravam o problema. Estes fatores, muitas vezes cumulativos, dificultam a identificação precoce e a intervenção adequada, perpetuando o impacto da ansiedade ao longo do tempo.
Retomando os dados do INE, importa sublinhar que a ansiedade não pode ser entendida apenas como uma questão individual, mas como o reflexo de um contexto estrutural, no qual se destaca a crescente instabilidade global — marcada por incerteza económica, conflitos internacionais e rápida transformação tecnológica — que intensifica a vulnerabilidade e a sensação de imprevisibilidade. A resposta exige mudanças a esse nível, a par com uma abordagem preventiva consistente e um investimento reforçado em saúde, capaz de garantir apoio efetivo a quem dele necessita — sob pena de se normalizar um nível de sofrimento que deveria ser exceção.

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