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Os primeiros passos (parte 4)Portugal–Década de 90

26 de junho de 2026 às 16 h42

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e também os meios de transporte, mas a vontade de querer viajar aumentou. Aos 16 anos, apanhámos o gosto pelo comboio. Após umas idas a Coimbra e à Figueira da Foz, aventurávamo-nos agora rumo a Lisboa.

Era uma cidade apelativa onde havia tanto para descobrir e para fazer. Para o dia render bem, tínhamos de sair de casa na noite anterior, no último comboio para Coimbra. Aí, teríamos de fazer um compasso de espera que por vezes roçava o perigoso quando aguardávamos na estação de Coimbra A pelo momento de seguir para a Estação Velha de Coimbra B. Era uma zona mal frequentada, o que não deixou também de ser uma lição de percebermos que o mundo também era assim.

Quando, finalmente, com algum sono à mistura, apanhávamos aquele que, para nós, se tornou o mítico regional das duas e pouco da manhã para Lisboa Santa Apolónia, esbarrávamos em carruagens abarrotadas de militares oriundos do norte do país que seguiam para Tancos ou Santa Margarida. O cheiro a chulé irrompia-nos sem dó nem piedade pelas narinas adentro. Mas o pior era mesmo a falta de lugar. Dormia-se no chão, entre a porta de entrada e o corredor, ou, como cheguei a fazer em desespero, na própria mesa do bar.

Por vezes, fazíamos também a festa com alguma bebida alcoólica discreta e eficazmente surripiada aos nossos pais. Numa dessas viagens, foi difícil a um dos elementos do grupo reunir condições para subir a muito íngreme rua que dava acesso aquela que seria uma das nossas grandes descobertas, a Feira da Ladra. Ficámos maravilhados com esse admirável mundo novo pois sentíamo-nos caçadores de tesouros que, julgávamos, estariam ali à espera de serem desenterrados. Falo de livros, CDs, e de todo o tipo de parafernálias e velharias que nos enchiam o olho.

A par disso, tivemos a sorte de a visitar numa época em que chegávamos ainda de noite, sobretudo quando era inverno, e se andava de lanterna a revirar as relíquias que ali tinham acabado de chegar, sabe-se lá vindas de onde, num ambiente meio marginal, o que também nos fascinava.

Hábitos como esse, ainda hoje carrego comigo quando visito Lisboa, mas chego na noite anterior para dormir agora numa cama de um alojamento bem próximo para assim acordar cedo e ver o que o Universo me trouxe para me vir ali parar às mãos.
(continua daqui a duas crónicas)

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