Compreender a sociedadeopiniaoSem categoria

Quando o calor aperta – Restaurar ecossistemas ou restaurar relações

27 de junho de 2026 às 09 h30

Quando se fala de biodiversidade, pensa-se quase sempre em espécies ameaçadas, florestas distantes, números de relatórios científicos. Uma preocupação legítima, mas que se sente distante da realidade que vivemos no quotidiano. A regeneração da natureza tornou-se, nos últimos anos, uma prioridade política europeia. Já não basta conservar o que resta. É preciso restaurar rios, florestas, solos. O objetivo é justo e é urgente. Por isso é que não se compreende que se continuem a abater árvores para preservar cimento ou para as substituir por painéis. Há assim o risco estrutural que raramente se discute, que é o de a regeneração se tornar um exercício de cumprimento técnico – metas de hectares, indicadores de espécies, relatórios de progresso – sem que isso signifique, na prática, regenerar a relação entre as pessoas e os territórios que essas métricas pretendem salvar. Podemos restaurar um ecossistema no papel e, ainda assim, deixar morrer tudo o que lhe dava sentido humano.


Estive no Brasil a trabalhar num projeto sobre biodiversidade, conservação costeira e comunidades locais. Numa das últimas manhãs, na comunidade de Jacumã, fomos recebidos por João Batista e pela sua família. Falámos da cultura que alimenta as diversas gerações e da aprendizagem que se faz pela prática. O mar, as marés, as transformações observadas ao longo de uma vida inteira ali vivida. A sobrevivência. As lutas. O território. Entre uma conversa e outra, o bombo começou a marcar o ritmo. Familiares de diferentes idades – dos mais novos aos mais velhos – ensaiaram as letras e os passos preparados para a tradicional Festa do Coco. Partilhámos ali, de uma cultura ancestral que faz um território, uma memória, um ritmo feito por gerações e gerações que se reencontravam ali, naquele momento, em suspensão. Como se nada mais houvesse. Este episódio mostra que a biodiversidade não é nem pode ser apenas a variedade de espécies catalogadas, conhecidas. É também a rede de relações que sustenta a vida: os mangais que alimentam a pesca artesanal, os saberes sobre marés e ciclos naturais transmitidos sem livros, as histórias contadas pelos mais velhos enquanto os mais jovens ainda querem ouvir, as práticas culturais nascidas de gerações a habitar o mesmo pedaço de terra e de mar. Regenerar um ecossistema sem regenerar essa rede de relações é restaurar a paisagem provisoriamente e deixar morrer, em silêncio, o que lhe dava sentido e permite a sua preservação. É ganhar hectares e perder memória.


E lá, distante, pensei o aqui tão perto, onde trabalhamos também. Nas aldeias sejam da Malcata, sejam do planalto mirandês, no parque do douro internacional, nos campos e serras onde tantas gerações aprenderam a viver da terra, a ler o tempo nas nuvens, a conhecer cada nascente, cada planta e cada caminho. Os contextos são radicalmente diferentes – o litoral tropical da Paraíba e o interior raiano português – mas o mecanismo de perda é surpreendentemente o mesmo, já que nos deparámos com o envelhecimento das populações e o êxodo dos mais jovens, o desaparecimento de saberes orais, o esvaziamento das formas tradicionais de relação com o território. Bastaram dois ou três dias de calor intenso para nos lembrarmos da importância desta regeneração da natureza, a começar pelas árvores, pelas suas florestas e da recuperação de ecossistemas degradados pelos incêndios e pelo abandono. E também aqui o risco é idêntico: fazê-lo através de programas e financiamentos que plantam árvores, mas não plantam continuidade, que recuperam solos, mas não recuperam quem ainda sabia lê-los. E por isso, quando uma nascente seca, quando uma atividade tradicional desaparece, quando já não há quem saiba transmitir aquilo que sempre se soube sobre um lugar, não se perde apenas natureza. Perde-se memória coletiva, que nenhuma meta de hectares restaurados a devolve. Jacumã, longe daqui, permitiu-me perceber que o paradigma do restauro da natureza tem de ser o do cuidado: relações de proximidade, afetos pela terra e pelos seus ritmos, pelas árvores, pelos rios e pelos riachos. Um cuidado que só é completo quando inclui as comunidades que ainda ali vivem, não como beneficiárias de políticas decididas sem elas, mas como coautoras dessas mesmas políticas.

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

Compreender a sociedade

opiniao

Sem categoria