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Olhares cruzados

16 de junho de 2026 às 19 h00

Gena Rowlands faria 96 anos no dia 19 de junho de 2026. A atriz participou em 10 filmes realizados por John Cassavetes, seu marido, entre eles o memorável “Uma Mulher sob Influência”.

 

Se não me engano, quando vi “Uma Mulher sob Influência” pela primeira vez, andava a ler Javier Marías. O livro era Amanhã na Batalha Pensa em Mim. Como toda a gente que o leu com o mínimo de atenção, senti-me haunted, um conceito que, mesmo no castelhano original, surge emprestado do inglês pelo romance fora. Não tenho bem a certeza do que significa: não é bem assombrado, nem perseguido, nem perturbado; parece-me mais uma mistura dos três. Raros são os filmes que mexem connosco dessa maneira; regra geral, são esquecidos demasiado cedo.

 

“Mas obras como “Uma Mulher sob Influência” permanecem ao nosso lado; sempre que algo nos lembra delas, sentimos um grave arrepio na espinha, como se a morte se estivesse a passear em volta de nós.”

 

Gena Rowlands é Mabel. Peter Falk é Nick. Ambos eram escolha recorrente do realizador, John Cassavetes, para os seus filmes. O casal protagonista, como todos os casais que valem a pena filmar, não funciona. Não que não haja amor; mas pela sua desconexão: Mabel já não está neste mundo; e Nick, com três filhos às costas, não sabe o que fazer, atarantado entre o trabalho, os colegas, e a loucura da mulher. É devastador vermos duas pessoas diante uma da outra que não se conseguem ver, como se houvesse um denso nevoeiro entre elas.

Uma Mulher sob Influência começa por nos confundir logo pelo título: sabemos que aquela mulher está sob a influência de alguma coisa, mas nunca chegamos a descobrir do quê, muito porque o génio da atriz o varre para debaixo do tapete do subtexto. Sabemos, antes, que o seu olhar passa o tempo todo perdido, desfocado, como se Mabel tivesse ficado para trás, como uma criança esquecida à saída da escola.

 

“Esta obra, lançada em 1974, surgiu num tempo incomum para o cinema americano: já tudo tinha sido feito, portanto podia-se fazer tudo”


 

Mal o filme começa, não surgem os típicos anúncios das produtoras e distribuidoras; estamos num filme independente por excelência, feito sem a sentinela dos produtores. Em vez disso, de imediato surge uma equipa de trabalhadores de colarinho azul com as galochas afogadas num charco, a trabalhar para ganhar o seu. E estamos dentro do filme.

John Cassavetes não perdia tempo, mas deixava-se ficar. Os seus filmes são longos mas não demoram; demoram-se antes em nós, como um fantasma apaixonado, neste caso personificado no papel afetado de Rowlands. O cinema independente ficou órfão quando o realizador nos deixou, em 1989. Mas nem por isso estas produções nos deixaram também: hoje, mais do que nunca, há espaço para elas. O autor aproveitava a liberdade que a falta de investimento compra, e conduzia os atores de uma forma inovadora: deixava-os ser.

Se o cinema da velha Hollywood contemplava prestações mais automatizadas e teatrais, o greco-americano Cassavetes deu-se ao luxo de montar um palco para os seus atores fazerem o que lhes apetecesse. À primeira vista o resultado vai sempre parecer estranho: o espectador regular não está habituado a este à vontade, a vísceras tão expostas. Mas depois de se entranhar fica complicado não admirar esta representação mais inventiva e improvisada, sobretudo mais original, através da qual Gena Rowlands entrega uma das performances mais marcantes da história do cinema.

Mabel e Nick nunca se poderiam resolver, tivesse este filme quinze horas. Não é todos os dias que se encontram atores tão sincronizados a estarem tão desligados um do outro: Gena com o seu olhar desconexo, Falk com o seu famoso estrabismo de louco. Ao longo do filme até vão cruzando o olhar; mas são poucos os momentos em que realmente se chegam a ver um ao outro.

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