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Opinião: Dignidade infinita

29 de abril de 2024 às 08 h31

Conforme é sabido, o primeiro capítulo do livro do Génesis contém um acumular de várias contribuições recolhidas ao longo de quase um milénio entre os séculos XV a. C. e V a. C. Inclui por isso contribuições consideradas mais antigas e “populares” (como a conhecida narração da criação de Adão e Eva) e contribuições tidas como ulteriores, de carácter mais erudito, em que se inclui o conhecido poema da criação (“No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas.”). O redator desta versão erudita inclui também os conhecidos versos sobre a criação do homem: “Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher.”
À época trata-se de uma ideia audaciosa e inaudita (e, para os crentes, verdadeiramente inspirada): a ideia de uma humanidade feita à imagem da própria divindade. A digestão de um conceito tão revolucionário não tem sido fácil desde então e está bem longe de ter sido assimilado. Nos três milénios que decorreram entretanto, não tem faltado quem coloque adversativas na extraordinária proposta bíblica, em variantes que se traduzem, em teoria e sobretudo na prática, em “Deus criou o ser humano à sua imagem, mas fulano/sicrano/beltrano ficou muito mal na fotografia e é manifestamente indigno de tal.”
É contudo inegável o poder extraordinário desta ideia, afirmada não apenas pela tradição espiritual mas pela própria razão, e que veio a conhecer concretizações notáveis ao longo dos séculos, culminando recentemente na Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948.
Como forma de assinalar o 75º aniversário desta feliz efeméride, o departamento doutrinal do Vaticano publicou no passado dia 2 de Abril a Declaração “Dignitas infinita” sobre a dignidade humana. Conforme explica o texto de apresentação, trata-se de um documento fruto de uma prolongada reflexão de cinco anos, em profundo diálogo com o Papa, que solicitou uma perspetiva mais abrangente do que a inicialmente proposta. O denso documento final propõe assim uma reflexão particular sobre “algumas graves violações da dignidade humana particularmente atuais”: “a pobreza extrema, ligada à desigual distribuição da riqueza”, a guerra, o sofrimento dos migrantes (“primeiras vítimas das múltiplas formas de pobreza”), o tráfico de pessoas, os abusos sexuais, as violências contra as mulheres (“se nas palavras se reconhece a igual dignidade da mulher, em alguns países as desigualdades entre mulheres e homens são gravíssimas”), o aborto, a maternidade de substituição, a eutanásia e o suicídio assistido, o descarte das pessoas com deficiência, a teoria de género ( e a “sua tentativa de negar a maior das diferenças possíveis entre os seres viventes: a diferença sexual”), a mudança de sexo, a violência digital.
O mero elencar destes tópicos é suscetível de gerar fortes reações nos quadrantes mais extremados. Trata-se, pois, de um documento e de uma reflexão certeiras, cujo conteúdo seguramente desagradará aos gregos e aos troianos de serviço. Merece por isso ser lido por todos os homens e mulheres de boa vontade.

1 Comentário

  1. Conciliabulum diz:

    O comum e reiterado problema dos textos que têm resultado da prolongada reflexão dos ínclitos da ICAR ao longo dos séculos, é não a improbabilidade da quase totalidade das suas perspectivas de onde derivam contaminantes preceitos morais e imperativos éticos, mas o perigo da sua diligente aceitação fundada em evidência questionável. Tais derivativos são comummente do agrado das tribus rusticae.

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