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Virtude que empobrece

15 de dezembro de 2025 às 11 h10
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A Suíça voltou a chocar quem confunde política fiscal com catarse moral. Em referendo recente, os eleitores rejeitaram um novo imposto sobre os grandes patrimónios. Para alguns, prova definitiva de que o país protege os ricos. Para quem conhece o sistema suíço, apenas mais um exercício de lucidez democrática.

Convém começar pelo óbvio: a Suíça não é um paraíso sem impostos. Tributa rendimento, património e heranças. Mas fá-lo com previsibilidade, descentralização e uma obsessão quase irritante por consequências reais. Aqui, impostos não servem para enviar mensagens morais nem para ajustar contas ideológicas. Servem para financiar um Estado que funciona e que não promete tudo a todos. O debate não foi emocional mas sim racional. Falou-se de competitividade, de mobilidade de capital, de impacto na base fiscal e de efeitos a médio prazo. Falou-se, imagine-se, de contas.

Num país pequeno, aberto e altamente integrado na economia global, taxar mais quem investe e fixa capital não é um gesto simbólico. É uma decisão estratégica e potencialmente autodestrutiva. Os suíços sabem algo que muitos fingem ignorar: o capital não é patriótico, não espera e não faz fila. Muda-se. E quando se muda, leva consigo investimento, empregos e receita fiscal.

O resultado costuma ser conhecido: mais virtude no discurso, menos dinheiro no orçamento. Talvez por isso o contrato social suíço seja simples e adulto: o Estado é exigente, mas eficiente; o cidadão paga, mas percebe porquê. Não há milagres fiscais, nem impostos redentores. Visto de Portugal, onde o debate fiscal oscila entre slogans e invejas bem-intencionadas, este “não” soa quase ofensivo. Mas talvez a verdadeira provocação seja outra: justiça fiscal não é punir os que têm mais, é garantir que o sistema funciona para todos.

E isso dá trabalho. Muito mais do que aprovar impostos que ficam bem no cartaz.

Autoria de:

Rui Duarte

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