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Um Leão para a paz

26 de maio de 2026 às 08 h45

Por ocasião do primeiro aniversário da sua eleição como bispo de Roma, é já visível o particular cunho com que Leão XIV assume esta pesada tarefa que, no peculiar humor eclesiástico, corresponde à forma mais expedita de mandar um cardeal para o Céu. A significativa escolha do nome papal remete, de acordo com o próprio, para Leão XIII, o primeiro papa “moderno”, responsável por um magistério influentíssimo, em que se inclui a fundação da moderna doutrina social da Igreja. O Papa identificou assim como prioritária a atualização deste tema aos desafios colocados pela inteligência artificial, tendo dedicado a este tema a sua primeira encíclica, “Magnifica Humanitas”, publicada a 25 de maio. O nome escolhido remete também para o primeiro papa que o utilizou, S. Leão Magno, figura tutelar da igreja romana: exerceu o seu ministério numa fase delicada em que não só havia riscos sérios de desagregação da Igreja, como o próprio império romano estava em colapso político. S. Leão Magno destacou-se em ambas as vertentes como diplomata proeminente. Teve um papel importante nos debates sobre a unidade da Igreja entre o papa anterior, Sisto III, e o bispo de Hipona, Santo Agostinho, cujas conceções teológicas promoveu profundamente após ascender ao pontificado. No campo político, Leão integrou a embaixada enviada para dissuadir o huno Átila de saquear Roma, tendo desempenhado um papel determinante para demover o invasor.

 

Acumulam-se assim afinidades entre Leão XIV e S. Leão Magno, desde a profunda influência do pensamento de Santo Agostinho ao próprio contexto interno e externo em que ambos desempenham o seu papel. Tal como no século V, também a ordem internacional até agora vigente está em decomposição acelerada. O incómodo dos Átilas contemporâneos com este Leão sem garras aparentes e de rugido suave é por demais evidente. Tal capacidade de incomodar não deixa de representar uma extraordinária fonte de esperança, dado o potencial destrutivo que os hunos de hoje têm relativamente aos de há mil e seiscentos anos atrás.

 

Tal como no tempo de Leão Magno, acumulam-se também tensões com risco real de fratura interna na Igreja, a que o Papa tem procurado responder de forma diplomática, mas firme, mantendo sempre como preocupação a unidade da Igreja, tal como definida no seu lema episcopal: “In Illo Uno Unum” (“n’Ele que é um, somos um”). Esta frase de Santo Agostinho estabelece um caminho de grande exigência, pois tal unidade assenta no próprio Cristo, sob pena de se reduzir a uma mera encenação. É uma unidade que não conhece fronteiras, atravessando e transcendendo o tempo. A este respeito, o Papa tem sublinhado e reafirmado, no essencial, o legado de Francisco, com uma elegância que aponta também para a “hermenêutica da continuidade” de Bento XVI.

 

Passado apenas um ano, aquele “A paz esteja convosco!” com que o neo-eleito saudou o Mundo mostrou ser muito mais do que um literal salamaleque de cortesia, antes revelando um entendimento profundo da missão do bispo de Roma. Repetida, amplificada, explicada e exemplificada ao longo deste primeiro ano de pontificado, esta saudação tem assumido um autêntico carácter programático para a Igreja e para o Mundo. E, conforme apontam o tema e título da encíclica “Magnifica Humanitas”, sobre a “salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”, a verdadeira paz não pode ser alcançada sem justiça social e sem pleno respeito pela dignidade humana.

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