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Quando a tecnologia chega antes da estratégia

28 de maio de 2026 às 10 h15

O Jornal Expresso noticiava na semana passada que em Portugal existem já empresas 50% mais eficientes com a IA, cuja adoção começa a gerar ganhos tangíveis, com aumentos de eficiência e reduções relevantes de custos e de tempos operacionais. No entanto, esse valor surge não de forma automática nem generalizada, mas sim devido à capacidade das empresas de redesenharem os seus processos e alinharem a tecnologia com os seus objetivos estratégicos. Se, até agora, a transformação digital foi tratada como um processo sobretudo tecnológico – adquirir software e hardware, desenvolver plataformas ou recolher dados, hoje, essa visão é insuficiente e a digitalização passou a ser um desafio organizacional. As organizações continuam a usar IA como uma camada adicional sobre processos antigos e ineficientes que automatizam tarefas isoladas, sem redesenhar fluxos de trabalho, o que não conduz a um retorno visível.

 

Por outro lado, assistimos, desde o início do ano, a uma onda de despedimentos nas principais empresas tecnológicas – mais de 90 mil empregos tecnológicos já terão sido eliminados até maio de 2026 nas maiores tecnológicas – Meta, Amazon, Microsoft, Intel e muitas outras. O motivo, esse, não é difícil de adivinhar e está naturalmente ligado, em grande parte, à reorganização necessária decorrente da forte entrada da IA generativa que viabiliza a automatização de muitas funções e, com isto, a supressão de postos de trabalho. Por outro lado, a dimensão dos investimentos em infraestrutura de IA coloca pressão às empresas para fazerem ajustes e, com isso, terem de redirecionar os seus investimentos em IA.

 

O estudo “Agents, robots, and us – How AI reshapes work and skills in Europe” do McKinsey Global Institute (disponibilizado a 12 de maio de 2026) conclui que 58% das horas de trabalho atualmente realizadas na Europa podem ser automatizadas com tecnologias já existentes. O que não significa, no entanto, que 58% dos empregos desapareçam. Significa, sim, que o trabalho será reorganizado, com o necessário reskilling. As competências não desaparecem, mudam de contexto: um gestor continuará a precisar de pensamento crítico, mas passará a aplicá-lo em interação com sistemas inteligentes; um técnico da indústria continuará a assegurar a eficiência dos processos, mas com o apoio de mais sensores, visão artificial, agentes de IA; um profissional de saúde continuará a exercer a sua função, com decisões e interpretações, mesmo quando parte desta análise vier a ser automatizada.

 

A mudança mais relevante não está, portanto, na eliminação de pessoas, mas na redefinição das funções. Talvez por isso, o maior desafio da próxima década não será tecnológico. Será sobretudo estratégico e humano. As empresas que liderarem esta nova fase não serão necessariamente as que tiverem melhor infraestrutura digital, mas as que conseguirem criar melhores modelos de colaboração entre pessoas e IA e investirem mais em competências, requalificação e adaptação da organização. A tecnologia existe e é necessário melhorar a confiança no seu uso, nomeadamente nas questões de privacidade da informação. Mas não deve servir só para automatizar as ineficiências existentes.

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