A saúde que necessitamos

Os doentes não são desperdício

22 de abril de 2026 às 08 h45

O Serviço Nacional de Saúde enfrenta hoje uma pressão estrutural impossível de ser ignorada. No final de 2025, mais de 1 milhão e 80 mil pessoas aguardavam por uma consulta hospitalar, um aumento de 14% face ao ano anterior. As listas de espera para cirurgia ultrapassavam os 264 mil doentes. Mais de 1,5 milhões de utentes continuam sem médico de família. Os números não são só estatística, são pessoas reais à espera de resposta para as suas doenças.

 

Portugal é, ao mesmo tempo, um país mais envelhecido e mais exigente em saúde. 24% da população tem mais de 65 anos e o índice de envelhecimento aproxima-se dos dois idosos por cada jovem. Acresce que mais de 42% dos adultos referem doença crónica ou problema de saúde prolongado. Isto traduz uma procura crescente, mais complexa e continuada. Não estamos perante um fenómeno transitório. Estamos perante uma transformação estrutural da sociedade portuguesa.

 

O mais preocupante não é apenas esta pressão. É o risco de nos acomodarmos a ela. De aceitarmos como normal esperar meses por uma consulta. De tolerarmos que centenas de milhares de pessoas não tenham médico de família. De considerarmos inevitável a exaustão dos médicos e de outros profissionais. Não podemos aceitar essa normalização! O SNS é um dos pilares fundamentais da nossa democracia e da coesão social. Merece ser defendido com exigência e coragem.

 

Isso exige, desde logo, um combate sério ao desperdício. Ele existe e deve ser enfrentado com determinação: má gestão, duplicação de exames, sistemas que não comunicam, compras descoordenadas, burocracia que consome tempo clínico, ausência de auditoria eficaz. Tudo isto são sinais de desorganização que não podem persistir.

 

Mas há uma linha que nunca deverá ser ultrapassada. Combater desperdício não é cortar na resposta assistencial. Não é restringir o acesso, nem reduzir o doente a uma variável financeira. Uma consulta em tempo útil não é desperdício. Uma cirurgia realizada no momento certo não é desperdício. Um diagnóstico precoce não é desperdício.

 

O SNS precisa de financiamento adequado, de estabilidade na liderança e de uma reforma profunda. Precisa de valorizar os seus médicos e as equipas de saúde, devolvendo às pessoas a centralidade que sempre deveriam ter tido.

 

Como afirmei na Assembleia da República, a propósito do financiamento do SNS, e repito aqui: “os doentes não são desperdício!”

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