Opinião: Voto sem tapar a cara: é preciso escolher de olhos bem abertos
No passado fim-de-semana, o país foi às urnas escolher o próximo Presidente da República mas, como se previa, não foi definitivo: nenhum candidato teve mais de 50% dos votos, pelo que, no próximo dia 8 de fevereiro, lá estaremos novamente para uma segunda volta decisiva. Mais decisiva do que nunca, eu diria.
Sou só mais uma a dizer o evidente mas, porque os tempos – e a memória, a História, o passado e, principalmente, o futuro – nos obrigam a proteger o que pensámos ser irrevogável, não me coíbo de ser mais uma a fazê-lo. No próximo dia 8 o que nos leva às urnas é mais do que uma eleição presidencial. Mais do que um Presidente da República, nas próximas eleições – eventualmente, as mais decisivas dos últimos 50 anos – vamos escolher entre a decência e o intolerável. Queremos continuar a ser um país democrático? É isso que está em jogo.
O próximo voto não é sobre partidos. E apesar de uma primeira leitura, mais simplista, poder indicá-lo, também não é sobre Esquerda VS Direita. E a prová-lo estão as várias figuras públicas assumidamente de Direita que vieram, nos últimos dias, declarar apoio público a António José Seguro. Somos confrontados com duas opções: abrir alas ao pior que há na humanidade – o ressentimento e o ódio, a força para com os fracos, a homofobia, a xenofobia, o sexismo e a intolerância – ou continuar a defender os valores que são comuns – têm de ser comuns – a todos os que acreditam na Democracia. E esses não são valores ideológicos, nem partidários, não têm género, idade, nacionalidade ou credo: são transversais às pessoas de bem. É um chão comum da decência por onde todos, em conjunto, como coletivo, devemos caminhar.
A abstenção não é opção – nunca é, mas este momento convoca-nos mais do que nunca. Votar em branco também não e votos nulos em nada ajudam a causa que é de todos. Quando a opção é entre democratas e antidemocratas a mão não nos pode tremer. Eu sei que há muitos democratas que não se reveem em António Seguro e, noutras circunstâncias, esta também não seria a minha opção. Compreendo o descrédito e o desânimo – amplamente explorados pela Extrema-Direita – com “os do costume”, que ignoram os problemas reais da maioria dos cidadãos. Compreendo que não se sintam representados pelos principais partidos políticos e que o voto no populismo talvez seja, para muitas pessoas, um grito: é a forma que encontraram de mostrar que importam, que existem e não querem continuar a ser ignoradas. Mas dia 8 não há espaço para votos de protesto. Seremos chamados para responder sobre o mundo em que acreditamos, sobre o futuro que queremos deixar aos nossos filhos. E ser neutro não é opção.
André Ventura quer ser Presidente da República. É o mais alto cargo da República Portuguesa, o de Chefe de Estado, Comandante Supremo das Forças Armadas, garante da estabilidade e independência de Portugal. É o responsável por assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas, o presidente de todos os cidadãos portugueses – de todos, por igual. Vamos arriscar deixar o mais importante cargo do país nas mãos de alguém que se move a ódio, personificando tudo o que é retrocesso civilizacional?
Por estes dias, tenho visto citar várias vezes Álvaro Cunhal quando, em 1986, num ato de grande maturidade democrática, e como estadista que era, não permitiu que a cegueira ideológica o impedisse, ainda que “engolindo um sapo”, de apelar ao voto no Partido Socialista para eleger Mário Soares (então, contra Freitas do Amaral). Apelou a que votassem nele, mesmo que fosse “preciso tapar a cara e fazer uma cruz no quadrado certo”. Admiro muito o Álvaro Cunhal, por vários motivos, mas desta vez não me junto ao coro que o cita. No próximo dia 8, vou votar sem hesitar e sem que a mão me trema na hora de escolher o quadrado certo. Votarei num candidato que, em circunstâncias normais, não seria a minha escolha, mas voto sem tapar a cara. Porque hoje, mais do que nunca, é preciso escolher o futuro de olhos bem abertos.

