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Opinião: Viver o presente

31 de março de 2025 às 11 h44
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Podemos nós viver apenas no presente? É isso que muitos psicoterapeutas propõem, e talvez seja o modo mais eficaz de nos livrarmos das preocupações que nos assolam. Em muitas situações de emergência é mesmo isso que fazemos: no caso de um acidente de automóvel ou numa catástrofe, os nossos sentidos aguçam-se, atentos para tudo o que está a acontecer naquele momento, não há pormenor instantâneo que nos falhe, e é assim que muitas vezes salvamos as nossas vidas. Não estamos então a lembrarmo-nos do que se passou ontem nem do que acontecerá amanhã. Mas podemos estar seguros de que toda a aprendizagem anterior está lá para nos ajudar.

Paradoxalmente, é nos momentos em que estamos descansados, sem fazer nada e sem nada que nos possa afligir, que o passado ou as preocupações do futuro nos começam a atormentar. E nessa altura nem nos lembramos de que o passado é apenas um conjunto de memórias, boas ou más, que se podem manipular por procedimentos psicológicos. E também não nos damos conta de que o futuro é sempre incerto e qualquer coisa pode acontecer para que o nosso rumo seja completamente desviado. O facto de se viver no passado retira-nos a espontaneidade e tende a fazer-nos repetir as acções passadas. A preocupação com o futuro traz para o momento presente um acontecimento, muitas vezes mau, que pode nem se realizar. Passado e futuro são ilusórios, e a única coisa que podem fazer é trazer sofrimento para o aqui e agora, no preciso momento em que poderíamos estar em paz connosco próprios.

E os sonhos da nossa vida não fazem qualquer sentido? Sim, temos direito a eles, mas há que ter paciência e não esperar que se realizem imediatamente. A felicidade de ter um carro novo tem pouca dura e logo pede um carro melhor, o mesmo com uma casa nova, uma fortuna ou uma vida de luxo, e tudo isso pode acabar mal. O caminho para os nossos sonhos é longo e comedido, esperando o momento em que eles se possam realizar para os fruir com humildade.

Mas será que o tempo não tem qualquer importância? Tem. Quando estamos envolvidos numa tarefa, temos de fazer recurso às nossas agendas e calendários. Nem sempre foi assim nos povos primitivos, mas a nossa civilização gere-se pelos relógios. Não os podemos dispensar sempre. Mas o que importa é ter consciência disso e percebermos que, lá no fundo, subjacente a tudo o que fazemos, existe uma parte de nós que está preparada para viver o presente. Os místicos ajudam-nos a lá chegar em qualquer momento. Não custa praticá-lo.

É também certo que podemos por um tempo sair da nossa rotina e viver, no presente, uma vida fora de nós. Uma viagem pode ajudar, mas podemos viajar através de leituras e filmes. Às vezes estamos tão identificados com a personagem de um filme que temos de fazer um esforço para nos vermos a nós próprios, sentados na plateia. O mesmo pode acontecer em encontros inesperados. Podem marcar novos rumos para a nossa vida, mas é preciso estar aberto ao inesperado e preparado para o espanto que eles possam causar. Podemos aprendê-lo com as crianças que, antes de se conhecerem a si próprias, se lançam na vida dos novos encontros com júbilo e alegria, daí retirando a felicidade do momento presente.

Autoria de:

Pio Abreu

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