diario as beiras
opiniao

Opinião: Vendavais

16 de novembro de 2024 às 12 h09
0 comentário(s)

Dois anunciados cataclismos varreram a atualidade noticiosa dos últimos dias. A fúria das águas, em Valência, e a fúria dos eleitores, no outro lado do Atlântico.

As duas catástrofes têm um ponto em comum. Representam o colapso do modo de ser e do modo de viver racional-iluminista.
Com Descartes iniciou-se a dessacralização da natureza, do homem e do mundo. O mundo natural tornou-se, por excelência, o objeto do proclamado domínio do humano universo tecno-científico.

Os resultados estão à vista.
As águas de Valência são a consequência da arrogância que fundou a revolução científica e a revolução industrial, conjugada com a irremediável cupidez da especulação urbanista e imobiliária.
E são, sobretudo, o trágico símbolo da insignificância humana face às indomáveis forças naturais.
Já a fúria dos colarinhos azul e da defunta classe média americana é o inevitável desfecho da desilusão, e da traição, democrática.

Os trabalhadores do mundo dito ocidental há 40 anos que têm o poder de compra estagnado. A riqueza afluente e sem paralelo dos nossos dias concentra-se num micro nicho de afortunados, cidadãos do mundo, e habitantes de mundos de jatos privados, ilhas privativas, iates, paraísos fiscais e condomínios fechados. Thomas Piketty e Joseph Stiglitz vêm, em vão, evidenciando a impensável realidade de menos de 900 hiper ricos acumularem 40% da riqueza universal.
Até que, como é da natureza das coisas, também das coisas políticas, um vendaval arrase uma outra vez as falhadas democracias liberais.

Autoria de:

Manuel Castelo Branco

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao