Torre : um xeque mate adiado!
Fui à Torre pela primeira vez apenas há umas semanas. Saí para o passeio ainda contaminada pela harmonia contagiosa da Pousada da Serra da Estrela, instalada no antigo sanatório da CP e recuperada por Souto de Moura.
A expectativa era simples: encontrar, no ponto mais alto de Portugal continental, um lugar à altura da montanha. O que encontrei foi outra coisa — um património singular cercado por sinais de desleixo, comércio sem identidade e uma desconcertante perda de ligação entre a serra e aquilo que nela ainda poderia ser produzido.
A Torre tem tudo para ser um espaço exemplar. Tem a altitude, a paisagem, a raridade geográfica e até uma espessura histórica pouco comum. Ali permanecem os antigos radares militares da Força Aérea, erguidos em 1957 no contexto da NATO e da Guerra Fria, estruturas que funcionaram até 1971 e que continuam a marcar o planalto como um vestígio de outro tempo. O próprio registo patrimonial descreve o conjunto como uma antiga estação de radar, com edifícios circulares que protegiam os equipamentos e túneis subterrâneos entre as construções. É um lugar raro … e maltratado!
O problema começa logo à chegada. Num espaço que deveria acolher o visitante com sobriedade e qualidade, surgem centros comerciais envelhecidos, visualmente pobres, quase resignados à decadência. Nas montras, em vez de uma curadoria que traduza a cultura serrana — lã, burel, queijo, pastoreio, trabalho artesanal, memória industrial — acumulam-se produtos indiferenciados, muitos deles sem qualquer relação visível com o território.
Também a vocação desportiva, que faz da Torre o principal palco dos desportos de neve em Portugal, parece viver num regime de sobrevivência. A própria estância explica que depende de produção de neve artificial e esclarece que não tem “pistas artificiais”, mas canhões de neve, o que mostra bem a fragilidade de um modelo que merecia muito mais ambição. Para já não falar das tristíssimas bases de plástico que servem de toboggans num evidente desrespeito pelo ambiente.
Mais tarde, em Manteigas, diante das ruínas de uma antiga fábrica têxtil, uma conversa casual com um antigo operário deu espessura humana a esse desencanto. Falou-se de queijo, de rebanhos, da lã e da serra real, não da serra vendida em postais. Contou-me que quis entregar a lã das suas ovelhas a uma fábrica da zona e que não a quiseram; a importada, disse ele, já chega tratada e limpa. Quanto ao queijo, perguntou-me se tinha visto muitos rebanhos. De facto, não tinha. Afiançou-me que o leite vem de Espanha em camiões-cisterna…
Não sei se vale como diagnóstico económico completo. Mas vale, pelo menos, como símbolo.
E talvez seja esse o centro do problema. A Torre não sofre apenas de degradação física. Sofre de uma quebra de nexo entre paisagem, património e economia local. Continua a ter altitude, beleza e memória. O que lhe falta, no seu lugar mais simbólico, é visão, exigência e brio.
E o pior é que nenhuma instituição local, maxime as autarquias, podem fazer grande coisa. A Serra como toda a nossa Paisagem é (des)protegida por uma Administração Central distante e impotente!
