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Coimbra: sob a capa da tradição

09 de maio de 2026 às 08 h45

Aproxima-se a Queima das Fitas – o ritual académico mais visível da cidade – e Coimbra volta a vestir-se de tradição. A serenata, o cortejo, as capas negras compõem uma linguagem pública de pertença, feita de gestos, símbolos e lugares reconhecíveis. Depois de meses de adaptação, praxe e aprendizagem de regras não escritas, para muitos estudantes, a entrada na academia ganha finalmente forma visível. Mas é também neste momento de celebração que vale a pena refletir sobre o que, exatamente, se aprendeu pelo caminho.

 

Chega-se à universidade, muitas vezes longe de casa, da família, das referências habituais. Para muitos estudantes, entrar na Universidade de Coimbra é mais do que começar um curso. Implica enfrentar a solidão, a insegurança e a pressão silenciosa de encontrar um lugar. É nesse vazio que a tradição ganha força.

 

A praxe, os códigos, os rituais, a antiguidade e a capa negra funcionam como mapa de entrada para um mundo novo. Porém, esse mapa não é neutro. Tem lugares marcados, vozes autorizadas e gestos esperados. Ensina quem fala e quem cala, quem conduz e quem segue. A integração não acontece apesar da hierarquia, mas precisamente através dela.

 

O problema é que uma integração construída pela hierarquia não ensina apenas a entrar num grupo. Ensina também uma forma de estar perante a autoridade. Ao longo desse ritual de integração, os estudantes aprendem a aceitar lugares superiores e inferiores, a reconhecer vozes autorizadas e a ajustar o comportamento ao que se espera de cada posição. Tudo isso vem misturado com amizade, brincadeira e a promessa de entrar numa história comum.

Esse processo de aprendizagem é particularmente perigoso para uma comunidade que deve formar sujeitos livres, críticos e capazes de participar da vida em sociedade sem confundir integração com submissão. O risco começa quando a obediência deixa de ser reconhecida como obediência e passa a chamar-se etapa, costume ou espírito académico. O lugar inferior parece provisório, quase inofensivo. Mas é precisamente nesse provisório que se aprende a aceitar a desigualdade.

 

A questão, por isso, não está apenas nos excessos que, de tempos a tempos, irrompem no debate público. Esses são os casos mais fáceis de condenar. O mais difícil é olhar para as formas banais, repetidas e até afetuosas através das quais a submissão se normaliza. Nada disto significa rejeitar os rituais académicos ou negar a memória que muitos estudantes encontram neles. A tradição merece ser celebrada, mas nunca sem questionarmos aquilo que nos está a transmitir.

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