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A liberdade não é um luxo

02 de maio de 2026 às 08 h45

Há uma pergunta que me acompanha, enquanto socióloga e cidadã: por que razão continuamos a tratar a liberdade como um privilégio, uma conquista frágil, um luxo de democracias maduras, quando ela é, na sua essência mais profunda, uma necessidade humana básica? Maslow organizou as necessidades humanas numa pirâmide, das mais elementares à autorrealização. Mas há um elemento que não aparece explicitamente e, ainda assim, sustenta todos os níveis: a liberdade. Sem ela, nenhuma necessidade se realiza plenamente. A liberdade — de ser, de pensar, de existir sem ser apagado — não está no topo; atravessa toda a estrutura.

A liberdade não substitui as condições materiais que a tornam possível; depende delas. Isso reforça a sua centralidade como eixo que articula as necessidades. Neste sentido, a questão é a de compreender que a liberdade opera em tensão com outras necessidades básicas – e que é precisamente essa tensão que define a qualidade das nossas sociedades.

Olhemos para as relações entre culturas.

Vivemos num tempo de diversidades – de saberes, de línguas, de modos de habitar o mundo. A pluralidade não é uma ameaça: é uma riqueza. No entanto, persistem os impulsos de ‘assimilação forçada’, de ‘hierarquização cultural’, da ideia de que há uma cultura certa e várias erradas. Quando queremos impor uma única forma de ser e apagar as outras, não estamos a promover a coesão, estamos a exercer violência simbólica.

E o que morre com uma cultura não são apenas os sinais exteriores, ‘o folclore’, morre uma forma inteira de compreender e agir no mundo.

Outro exemplo é o da saúde mental. Durante décadas, e ainda hoje, diagnósticos foram e são usados não apenas como instrumentos de cuidado, mas como mecanismos de controlo social. Quando um diagnóstico produz efeitos sociais, fixa uma identidade, reduz uma pessoa à sua condição e silencia a sua voz, deixa de ser terapêutico para se tornar opressivo. A negação da liberdade de ser mais do que um rótulo é, em si mesma, geradora de sofrimento. Não há saúde mental onde não há autodeterminação, narrativa própria e possibilidade de recusar o lugar imposto.

Na vida pública, o problema adensa-se, como temos visto na comunicação social. Quando se começa a discutir se “a vida era melhor antes ou depois” de um momento fundador da democracia como a Revolução de 25 de Abril. Isto não é apenas um exercício de memória. Estamos a abrir espaço à banalização da perda de direitos. E quando essa discussão evolui para tentativas de apagar, relativizar ou reescrever a história, entramos num território onde a liberdade deixa de ser garantida e passa a ser condicional.

E é assim, de forma lenta, que a liberdade se vai desvanecendo. Primeiro, normalizam-se discursos que desvalorizam direitos. Depois, questiona-se a sua necessidade. Por fim, substituem-se por outras prioridades – segurança, identidade, tradição – apresentadas como mais urgentes e emergenciais. É assim que as democracias se fragilizam a partir de dentro.

Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada que não posso deixar de referir: a relação com a natureza. Durante muito tempo, construímos a ideia de que não somos natureza, de que estamos fora dela, livres para a dominar. Mas essa noção de liberdade – entendida como ausência de limites – é ilusória. A crise climática, os eventos extremos e a degradação ambiental mostram que explorar sem reconhecer a interdependência da teia da vida é, no limite, autodestrutivo.
A liberdade não é uma abstração para discursos ocasionais, uma vez no ano. É a condição sem a qual tudo o resto colapsa – da saúde, à cultura, à democracia, ao planeta. Precisamos de a recolocar no centro como prática quotidiana, como critério político, como exigência ética. E nestes tempos onde as vozes autoritárias crescem em toda a Europa e no mundo, a defesa da liberdade e da democracia não pode ser ambígua. Tem de ser clara, firme e ancorada na memória do que custou conquistá-las.

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