Yiheyuan, um sonho imperial – China-2019
A melhor forma de nos evadirmos da massa cinzenta de arranha-céus, do ruído e da confusão que o trânsito de Pequim tem para nos oferecer é desaparecer da face da terra para apanharmos um metro para o Yiheyuan , o Palácio de Verão, que, apesar de ficar a apenas 20 quilómetros da Cidade Proibida, mais parece um espaço idílico a milhares de léguas de distância. Os seus primórdios remontam à Idade Média quando, no século XII, o imperador Wanyan Liang deslocou a sua capital para Pequim.
O século XIX traz as más memórias dos ocidentais, e este foi o palco de um dos episódios mais negros da história nacional quando, na segunda guerra do ópio, em 1860, as tropas dos exércitos inglês e francês conquistaram e saquearam este palácio, a que se seguiu também o incêndio deliberado da antiga residência de Verão imperial. Ainda hoje se veem esses escombros, produto de uma época em que o Ocidente dominava o mundo e humilhava o império celeste, golpes num orgulho nacional que ainda não cicatrizaram na memória coletiva do povo chinês.
Nestes três quilómetros quadrados, ocupados em boa parte pelo enorme espelho de água, o verde domina a paisagem, rematada muitas vezes com pagodes centenários que se erguem nos céus. Há pontes para todos os gostos, de pedra branca, como a “Cinto de Jade” que faz uma curvatura mito pouco ortodoxa para aquilo que um ocidental está habituado a atravessar.
A mais famosa é a dos Dezassete Arcos, que trespassa o lago para alcançar uma pequena ilha que mais parece um grão de terra naquele mar interior. Ao fim da tarde, os aficionados da fotografia começam a rondar esta área, arrastando os seus tripés à procura do ponto ideal para a fotografar ao pôr-do-sol.
Através do chamado “longo corredor”, uma linha imensa com duas fiadas de bancos, não faltam os aspirantes a músicos que se intercalam com casais de namorados que dali contemplam a serenidade que os nenúfares e os chorões têm para lhes dar. Num lago tão concorrido não poderão faltar barcos de recreio para transportar os turistas, que embarcam a cada meia hora para atingir a outra margem, mas aquele que mais sobressai é imóvel, pois é de mármore, ali atracado há quase três séculos.
Os ventos e as marés da História tendem a mudar, e um dia destes o também conhecido como “barco da pureza e facilidade” levanta as suas amarras e navegará ao sabor das correntes que faziam deste país a superpotência que agora voltou a ser.

