Opinião: Uma ideia para 2026: voltar ao cinema
Saíram recentemente várias notícias sobre o fim de diferentes salas de cinema em várias cidades portuguesas. Com o definitivo encerrar de portas dos Cinemas Alvaláxia, em Lisboa, são mais de 50 salas dedicadas à sétima arte a fechar, em 2025. E este não é um mal exclusivo da Capital. Maia, Gaia, Viseu, Tavira, Guia, Seixal, Funchal e, mais recentemente, Portimão são concelhos que durante o ano passado perderam salas de cinema. Há vários concelhos sem salas a funcionar regularmente e – mais grave – já há distritos sem exibição comercial de cinema: Guarda, Beja, Bragança e Portalegre são alguns exemplos. Se, por um lado, o aumento das rendas veio diminuir a rentabilidade, por outro lado, há cada vez menos espectadores. E o Cinema, para sobreviver, precisa de ser visto – em sala, porque é aí que ele se cumpre plenamente. Em Coimbra ainda há uma pequena ilha de resistência: a Casa do Cinema de Coimbra, dinamizada pela Associação de Artes Cinematográficas de Coimbra – Caminhos do Cinema Português.
A Casa do Cinema de Coimbra é uma espécie de abrigo para os cinéfilos da Região. A sua programação regular tem uma missão: “criar na Região de Coimbra um ponto de encontro da cinefilia e dos seus promotores, contribuindo para a coesão da região na promoção da cultura cinematográfica, ao receber na sua sala os vários agentes que trabalham na promoção da sétima arte. Esta casa torna-se igualmente premente na perspetiva de preservação e promoção do património cultural”.
A Casa do Cinema de Coimbra é, ainda, este lugar de encontro, que traz até nós o que de melhor se pode ver na sétima arte. E fá-lo num lugar histórico do Cinema na cidade: o Cinema Avenida, um dos primeiros recintos do país a receber o Cinema como forma artística, e, durante muitos anos, um dos principais ecrãs do país. E com uma particularidade especial – e rara, nos dias que correm: manter a tradição (em vias de extinção) do “cinema de bairro”, virado para a rua, fora de uma grande superfície comercial. E sem pipocas, sem copos de Coca-Cola de litro, sem intervalo. Só Cinema – imagem, som e silêncio, narrativa.
Com a sua programação em sala, debates, ciclos temáticos, o programa de formação e a relação com escolas e várias instituições da Região – com o objetivo de levar o Cinema onde ele tem mais dificuldade em chegar – os Caminhos do Cinema Português dão um notável contributo à Cultura e à criação de novos públicos, mas também à coesão territorial e social e ao acesso universal à Cultura. Muitas vezes, estes grandes chavões ganham forma real em pequenas coisas, como poder assistir ao “A
Vida é Bela”, no Polidesportivo da Quinta de D. João, numa noite ainda quente de fim de verão.
É sempre na Casa do Cinema de Coimbra que vejo os melhores filmes do ano. O Tiago Santos, juntamente com a sua equipa, faz um trabalho notável, que merece o nosso reconhecimento e apoio. Sou sócia desta associação há alguns anos e uma das primeiras coisas que faço no início de um novo ano é pagar a quota anual. É uma forma simples de contribuir para a continuidade de um projeto que mantém viva, há mais de 35 anos, a cultura cinematográfica da cidade. Para 2026 deixo esta ideia: vamos voltar às salas deste emblemático cinema de Coimbra. Porque é na sala que o Cinema se cumpre e esta sala é especial. E porque, nos dias que correm, criar espaço e tempo para que haja só Cinema – imagem, som e silêncio, narrativa – é, também, resistir.
