Opinião: Um país em negação
A ideia de que Portugal poderia “funcionar melhor” sem imigrantes é uma falácia e assenta numa atitude deplorável. Todos os dados estatísticos, a realidade e o bom senso desmentem-no por completo. É verdade que o fenómeno migratório coloca desafios de integração, justiça social e coesão — e que é legítimo debater limites e critérios de entrada. Mas uma sociedade que rejeita o outro por princípio acaba por comprometer o seu próprio futuro.
A história mostra-nos que Portugal sempre foi um país de migrações. Desde as ondas de emigração para França, Alemanha, Brasil ou Venezuela no século XX, até à receção de cidadãos de países lusófonos e da Europa de Leste no século XXI, a mobilidade é parte do nosso ADN coletivo. Recusar esse legado é recusar uma parte essencial da identidade portuguesa e da nossa história coletiva.
Sem imigrantes, Portugal seria hoje um país mais velho, mais pobre, mais desigual e mais isolado. A imigração, quando bem regulada e acompanhada por políticas públicas de integração e combate à discriminação, é uma alavanca de desenvolvimento e de rejuvenescimento nacional. O futuro de Portugal passa, inevitavelmente, por saber acolher e incluir. Não por construir muros, mas por abrir portas — com responsabilidade, com justiça e com visão.
Num momento em que o debate sobre imigração ganha uma crescente centralidade nas sociedades europeias, é essencial refletir de forma séria e fundamentada sobre o papel que os imigrantes desempenham na construção económica, social e cultural de um país como Portugal.
Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa, com uma das mais baixas taxas de natalidade da União Europeia. Sem a presença de imigrantes — que são, em média, mais jovens e com maior propensão a constituir família — o desequilíbrio demográfico tornar-se-ia ainda mais grave. Este fenómeno teria consequências diretas na sustentabilidade da segurança social, uma vez que, com menos ativos a contribuir e mais reformados a depender do sistema, o modelo atual tornar-se-ia insustentável.
Além disso, muitos setores da economia portuguesa dependem fortemente da mão de obra imigrante. Basta observar a agricultura no Alentejo e Ribatejo, a construção civil em todo o território nacional, o turismo e a restauração nas zonas urbanas e costeiras, os cuidados à terceira idade e a saúde (com milhares de auxiliares, enfermeiros e médicos estrangeiros). A ausência de imigrantes significaria escassez de mão de obra, perda de competitividade, atrasos em obras públicas e privadas, menor capacidade de resposta em hospitais e lares, e uma quebra significativa na atividade económica.
