Opinião: “Um cavalo de corrida genial”
É no 13º capítulo do magistral romance O Homem sem Qualidades, publicado entre 1930 e 1943, que o vienense Robert Musil relata o instante em que Ulrich, o protagonista, se depara com uma expressão que, usando as suas palavras, lhe atravessa o espírito como uma rajada de vento: “Um cavalo de corrida genial”. A frase, perdida num relato jornalístico, fascina-o por condensar, num só gesto linguístico, a vulgarização do conceito de “génio”, outrora reservado ao domínio das artes, da filosofia ou da ciência, e que agora é aplicado a um animal veloz. Algo semelhante ocorre hoje, quando jornais noticiam eventos partidários com a naturalidade de uma reportagem sobre a vida académica. Leia-se: “Hugo Soares e Carlos Moedas são os primeiros professores esta segunda-feira na Universidade do PSD, este ano em Castelo de Vide.” Palavras como professor e universidade, sem aspas, possuem aqui um valor de uso que nada tem a ver com ensino ou investigação, e transformam títulos e instituições num espetáculo de marketing político.
Há quase um século, quando jornais e rádio se massificavam, a ironia aguda de Musil captava um fenómeno que se tornou um dos símbolos do seu tempo: a dispersão do significado, a diluição da linguagem em slogans fáceis, mas carregados de emoção.
Na verdade, não foi mais do que uma antecipação, literária e filosófica, daquilo que hoje vivemos numa escala muitíssimo mais profunda, nesta era mediática da hipérbole permanente. Hoje, num tempo em que a linguagem circula de forma acelerada e molda a perceção pública, a escolha das palavras por figuras de autoridade e pelos média é tudo menos inocente. Falar de “professor” ou de “universidade”, ainda que num contexto metafórico, traz consigo conotações de prestígio e legitimidade que, neste caso, não correspondem ao evento em causa; banaliza categorias sociais e institucionais que a sociedade atribui com cuidado – veja-se o interminável debate sobre a mudança de designação dos Institutos Politécnicos. Ao qualificar atos partidários com terminologia académica, abre-se caminho a uma gramática populista e performativa, sustentada mais na aparência de autoridade do que em qualquer conteúdo real. E, como Musil mostra, esta tendência é tão mais eficaz quanto mais simplificada e inquestionada é a linguagem.
Dizemos: é apenas uma maneira de falar. Mas o diabo mora nos detalhes: naquilo que se torna normal, nas metáforas que passam despercebidas. A banalização da linguagem é também um problema ético. Se tudo pode ser o que se quiser, ‘professor’ ou ‘universidade’, ‘histórico’ ou ‘genial’, o discurso público perde densidade, e nós ficamos sem instrumentos para pensar o mundo – a não ser como paródia burlesca desse mundo. Ulrich reconheceu na ‘genialidade do cavalo de corrida’ um sintoma da crise da linguagem do seu tempo e percebeu também a ironia trágica que atravessava a Europa dos malditos anos 30: a grandeza das palavras não resistia ao seu uso vazio e irresponsável.
Mais do que celebrar títulos académicos ou inaugurações partidárias, talvez devêssemos cultivar o cuidado com a linguagem: esta sim, uma verdadeira forma de formar jovens políticos. E ouvir mais os grandes escritores quando falam a sério sobre as palavras.

