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Opinião – Simplesmente uma cruz

15 de setembro de 2025 às 10 h54
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Num dos cemitérios da nossa cidade encontra-se a seguinte inscrição: Para quê um nome? Basta uma cruz para dizer a vida.
Uma frase que de quando em quando regressa à minha memória. Simples. Enigmática. Provocadora. Esta cruz pode ser esperança ou derrota.
Efetivamente, o que faz Deus numa cruz? Deus e cruz não parece conjugar bem, nem parece fazer sentido. A afirmação de um Deus Todo Poderoso esbarra e conflitua com a imagem de um Deus ‘pregado’ na cruz.
O que me diz a cruz? O que diz a cruz de mim?
A cruz insiste numa ténue ligação entre profano e sagrado, entre terra e céu, entre queda e elevação, entre pecado e graça, entre a morte e a ressurreição.
Hoje a cruz aparece tatuada no corpo, pendurada ao peito, suspensa no retrovisor do carro, no meio de um monte, no cimo de uma igreja, na parede de uma casa, num museu de arte… Não tem lugar reservado e, por isso, pode habitar todos os lugares.
Gosto da ideia das cruzes que habitam lugares profanos e marginais, surgem como rasgos e frestas de luz, de inquietação ou simples provocação.
As cruzes não se medem pelo tamanho, nem pela beleza, mas pelo significado e abertura ao sagrado, pela angústia e esperança que encerram.
O calvário de Jesus e a cruz que transportou às costas fala-nos de tantos calvários do nosso mundo. Ontem e Hoje. Auschwitz, Birkenau, Gaza, Ucrânia, Sudão, Mianmar, Nigéria, Iémen, Síria, República Centro Africana, Somália, Israel, Irão… Mortes, doenças, separações, abusos, violência, injustiça…
Aquele Calvário pede-nos que estejamos atentos ao que se passa à nossa volta, convoca-nos à compaixão, desafia-nos à luta por um mundo melhor. Sempre que nos acomodamos na estética da cruz, esquecemos o grito que imana de cada cruz.
O específico do cristianismo não está na cruz, nem na morte, mas na entrega e na ressurreição. Jesus dá-se como amor por todos até ao fim. Braços abertos numa cruz como um abraço à humanidade.
Deixemos que a cruz nos ilumine e nos provoque (já que nos habita)!
Este texto, liga-nos à festa da Exaltação da Cruz, celebrada ontem em toda a Igreja, e reforça o convite a visitar a Exposição “Um Homem entre os Homens”, no Museu Municipal de Coimbra (Edifício Chiado), que reúne parte da coleção de Cristos de Maria Helena e de Luís Teixeira.

Autoria de:

Nuno Santos

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