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Opinião: Quem bate esquece

09 de janeiro de 2026 às 12 h57
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Manuel foi preso porque amava Teresa que o traiu. Manuel descobriu que ela trocava mensagens de amor no telemóvel. Podia ter chorado, podia ter saído de casa, podia ter morto um dos amantes ou até os dois. Podia ter virado a página. O cérebro em convulsões de ciúme, de raiva, de vingança plantava ideias e imagens. Manuel via tudo e percebia como Teresa se entregara apaixonada. A amante não é a esposa. Há tempestade no estatuto. As divertidas cumplicidades da diabrura não acarretam as contas do quotidiano. A liberdade da aventura não transporta os arreios do precurso, os fardos da relação com horários, filhos, obrigações. Manuel encheu-se de ciúmes e torturou -se na tentativa de perceber. Mas não há nada para entender na fuga dos prazeres carnais. São cegos, gostosos, gulosos, obcecados, excessivos.

Ela queria. Ela quis ter. Ela procurou e teve. Amou e foi amada. Desejou e foi desejada. Mentiu e enganou, julgando -se impune e invisível. Não foi. Não há transparência porque sempre alguém se apercebe. A paixão que a fez afastar-se, ficar estranha em casa, dizer horrores aqui e ali, durou. Teresa foi diferente e Manuel não ligou.
Manuel quando descobriu bateu -lhe e foi preso. Está preso. A lei não perdoa como as pessoas.
Ama Teresa e ela vem vê-lo diariamente. As conversas são catarses onde ela jura amor e ele sente-se injustiçado.
– se me amavas não me traias!
– precisava sentir-me viva!
– mas tinhas ciúmes de tudo! Eu nunca imaginei que me traisses. Recordava ele.
Choravam e discutiam e acusava ele e desculpava -se ela.
Ficaram juntos, não sei porquê. Ele entristeceu. Ela esforçou-se pelos dois.

Nunca saberei se ela pensa que ele alguma vez esquece. Nunca saberei se ela alguma vez se arrependerá. Nunca saberei se perdoaram a violência e a traição. Sei que ele não sente orgulho na relação como quando casou vaidoso. Sei que ela sente insegura a eternidade. Sei que gostam de estar juntos e ele nunca mais lhe bateu. Traições não sei se houve mais, de algum. Sei que ele tem vergonha de não ter percebido, de imaginar os comentários dos conhecidos.

Manuel está preso e vai sair para casa de Teresa. A prisão real é mais das emoções que de grades. Tem um tormento de dúvidas, uma força de inseguranças e incertezas. Esconde o orgulho amarrotado e a vergonha numa pose vaidosa. Manuel tem vergonha da tradição. Teresa amou um tipo no mesmo prédio, no mesmo emprego. Teresa fustiga a incerteza com dedicação. A violência de Manuel tem um contexto que ela perdoou e ultrapassou. A violência da sua traição foi uma tormenta nele. É mais fácil esquecer o que magoa que o que foi magoado. A vítima permanece ressentida e o agressor acaba por relevar. Acho que o Manuel sofre e assim ficará. Acho que as memórias tristes peduram com “memofante”. É assim a vida. Podia ser outra se tivessem desistido. Podia ser outra se a tivesse matado.

Autoria de:

Diogo Cabrita

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