Opinião: Quando o cheiro da morte nos acorda para as vidas que ignoramos
Uma Mãe de 92 anos e o seu filho, de 63, foram encontrados há uns dias, mortos em casa, em Lisboa. Morreram sozinhos, sem ajuda e silenciosamente. Foi o cheiro nauseabundo no interior do prédio, onde ambos viviam, que fez os vizinhos chamarem a polícia. Quando a PSP arrombou a porta daquele apartamento no primeiro andar, encontrou dois cadáveres já em estado de decomposição, num cenário da mais profunda tristeza. Não havia indícios de crime, as mortes terão sido de causas naturais – eram apenas dois idosos abandonados por todos nós. O homem teria morrido há cerca de três semanas e a Mãe, acamada e doente de Alzheimer, sem os cuidados do filho, acabou por falecer também. Estaria há cerca de duas semanas em casa, com o filho morto e sem nenhum tipo de cuidados.
A vizinhança estranhou o súbito desaparecimento de Paulo, que tinha rotinas fixas no bairro de Santos. Já não vinha à janela, que passou a ter os estores sempre descidos, fumar os seus habituais cigarros. No dia 8, a renda não foi paga ao senhorio, como era sempre, pontualmente, há décadas. Foi a dona do café que Paulo costumava frequentar a primeira a estranhar tantos dias de ausência do cliente habitual. Maria Emília e Paulo vivam naquela rua da capital há mais de 50 anos, mas eram silenciosos e discretos. Os vizinhos pouco ou nada sabiam sobre esta família. Maria Emília tinha sido professora e depois de o marido, Pai de Paulo, ter morrido há quase 40 anos, ficou sozinha com o filho. Desde que a Mãe ficou doente, já reformado por problemas de saúde, assumia o papel de cuidador dela. No bairro, todos sabiam da precariedade social da família, mas a situação não estava sinalizada pelos serviços sociais. E, como é habitual nestes casos, só o cheiro de uma desgraça há muito anunciada nos fez ver o que ignorávamos.
As situações de isolamento social de idosos, em Portugal, não são uma novidade. Segundo dados do Projeto Radar (um projeto conjunto entre a câmara e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para identificar situações de isolamento na terceira idade), só em Lisboa, serão cerca de 30 mil idosos em situação de isolamento indesejado e solidão, num universo de aproximadamente 132 mil pessoas com mais de 65 anos a viver na cidade. Só em Lisboa.
Pelo seu contexto, estes idosos são alvos fáceis de crimes; vivem isolados, sem apoio e, muitas vezes, sem acesso a cuidados de saúde, na mais profunda solidão. Sem ter com quem conversar e partilhar memórias, medos ou alegrias. Passam dias e dias sem ouvir a voz de outra pessoa. Ninguém os vê e quando precisam de alguém, ninguém aparece. De vez em quando, chegam-nos notícias destas, normalmente, tarde demais, quando já nada pode ser feito e nada pode ser dito, porque o silêncio absoluto da solidão emudece-nos. É estranho ser Natal, neste tempo em que é preciso o cheiro da morte acordar-nos para as vidas que ignoramos.
